20.4.26

A estória e a memória

Hoje é o dia 13 de mim sem útero. Ainda com pontos nas três linhas que agora são parte da minha barriga e mais uma sutura dentro do umbigo que só sei que está lá quando enfio o dedo mindinho lá no fundo.

Treze dias de repouso, do mundo lá fora. Treze dias aqui dentro de mim, com o intestino meio dono de si, flutuando no espaço agora vazio, minha cabeça pensante com horas livres nesse lugar que vou preenchendo com vontades de: dançar, especialmente; ler e escrever. 

Um útero parido com sonhos frustrados, muitos anos de dores, raiva, tristeza. Um útero que sai com mágoa, ressentimento, pena. Saiu com decisão bem pensada, até demais, e deixou um vácuo, buraco, pequena vaga a ser ocupada. 

Olha, vou te dizer, se eu soubesse que era só isso, tinha tirado antes.
Nossa, se eu pudesse eu tirava o meu.

Caminhadas leves, livros, comer, dormir. Banho, banheiro, visitas. Intervalos entre uma serenidade profunda e uma insatisfação completa com a vida doméstica, o desequilíbrio entre o dividir, o comandar, o fazer. O que fazer? 

Meu útero deixo lugar para oxigenar meu eu no mundo, obrigada.
Minutos antes da sala de cirurgia, com os olhos fechados eu mandei o recado de despedida: vá com tudo que me trouxe angústia: cólicas, enxaquecas, náuseas e nunca ter me tornado mãe. Essa é possivelmente a melhor coisa da sua existência, a de parar de existir em mim

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