Estávamos todos a passeio, no meio daquela gente branca de olhos azuis.
O ruído das vozes em outra língua - sensação familiar nos meus sonhos - mas entre nós, falávamos o bom português.
A loje era imensa. Uma mistura de depósito com loja de departamentos. Tudo meio desorganizado - logo na Escandinávia! - tinha a desculpa de estar em liquidação.
Me apaixonei perdidamente por inúmeros sapatos de plástico, no melhor estilo Melissa - que vinham também em borracha mole, siliconada, com cores incríveis! Verde limão, vermelho cereja, roxo batata. Os preços traduzidos para o real eram tentadores e o melhor de tudo - todos eram meu número!
Desci as escadas para o outro nível da loja, agora com roupas e artigos de casa - tudo numa grande pilha, pensei: - esses gringos devem me achar uma idiota - primeiro dia de viagem e gastando tudo na primeira loja - continuo descendo as escadas para o subsolo e me dou conta que a escada acaba. Assim do nada, não tem chão, não tem parede. Uma vendedora lá embaixo (eu não vejo o chão, só o rosto dela no meio do escuro) me avisa que é melhor eu subir. Fala e puxa o corrimão de um jeito que ele se encolhe todo, some da minha mão e fica camuflado no teto!
No andar seguinte, chego a um grande lobby em madeira escura e envernizada, com colagens lindíssimas pelas paredes. É um bar, tem pessoas conversando e tomando drinks. É o espaço mais amplo e bonito da loja. Hora de acordar.
19.1.08
18.1.08
Afinidades
A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
E o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto
no exato ponto em que foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos
verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece depois que
as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar
a um não afim, sai simples e claro diante
de alguém com quem você tem afinidade.
Afinidade é ficar longe pensando parecido a
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento
Afinidade é sentir com. Nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando falar,
jamais explicar: apenas afirmar.
Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quanto das impossibilidades vividas.
Afinidade é retomar a relação no ponto em que
parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro sob a
forma ampliada do eu individual aprimorado.
Artur da Távola - entregue pelo Paulo para mim.
(Dedico esse poema aos novos e velhos amigos que fizeram parte da minha vida nesses últimos tempos difíceis. Desde os comentários aqui até as almofadas da minha casa, super obrigada por tudo! Amo nossas afinidades! Vai também para meu irmão, que me aguenta firme sempre e para todos os seres que amo amo amo sem parar!)
delicado e penetrante dos sentimentos.
E o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto
no exato ponto em que foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos
verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece depois que
as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar
a um não afim, sai simples e claro diante
de alguém com quem você tem afinidade.
Afinidade é ficar longe pensando parecido a
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento
Afinidade é sentir com. Nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando falar,
jamais explicar: apenas afirmar.
Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quanto das impossibilidades vividas.
Afinidade é retomar a relação no ponto em que
parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro sob a
forma ampliada do eu individual aprimorado.
Artur da Távola - entregue pelo Paulo para mim.
(Dedico esse poema aos novos e velhos amigos que fizeram parte da minha vida nesses últimos tempos difíceis. Desde os comentários aqui até as almofadas da minha casa, super obrigada por tudo! Amo nossas afinidades! Vai também para meu irmão, que me aguenta firme sempre e para todos os seres que amo amo amo sem parar!)
17.1.08
Denguinho
Edmundo
Querida Júlix:
Hoje foi seu aniversário de oito anos e seus pais deixaram você aqui em Brasília para comemorar.
Sua festa foi de Branca de Neve e todas as suas tias ajudaram na preparação.
Tinha todos os salgadinhos da tia Angélica e um bolo de Suflair com brigadeiros da vovó Ignez.
Todos nós fomos e todos lhe deram presentes legais.
Mas o que você mais gostou, foi do pinto que você roubou da chácara da sua avó Mariz.
O Edmundo, que você batizou assim, era um pinto malhado de preto e branco, feio e fedido.
Você deixou ele descansando um pouco numa caixa de papelão na área de serviço, mas foi por pouco tempo.
Pegou o pinto pelas patas e carregou pra debaixo do bloco, depois que a súbita chuva passou.
O Edmundo estava bem estressado. Não estava confortável no seu colo. E muito menos com um barbante amarrado na pata enquanto você gritava - Edmundo, anda! Vem aqui! - Ele ciscava o chão liso e preto do prédio, talvez rezando por um salvador.
Não houve quem te convencesse que o Edmundo deveria voltar para a chácara, onde ele sempre seria seu - até você voltar, no próximo verão. - Nem mesmo explicando que ele morreria numa viagem de avião até o Rio, congelado com as bagagens. Você chorou e correu - o Edmundo debaixo do braço - até o fim do bloco. O pinto piava, você chorava e os adultos discutiam. A esperança é que amanhã você esqueça o pinto e vá brincar com todos os seus novos brinquedos - aí, Edmundo será libertado de volta.
Eu mesma duvido muito. Aposto que amanhã você acordará e já com Edmundo a tiracolo, irá brincar por aí entre os prédios da quadra da vó Ignez, em mais um dia de verão.

Feliz Aniversário, Júlia!
Beijos da Prima Fabianix
ps - Edmundo se recusou a posar para esta foto. Ele na verdade é uma franga. Odiou o nome e não quer dar entrevistas
Hoje foi seu aniversário de oito anos e seus pais deixaram você aqui em Brasília para comemorar.
Sua festa foi de Branca de Neve e todas as suas tias ajudaram na preparação.
Tinha todos os salgadinhos da tia Angélica e um bolo de Suflair com brigadeiros da vovó Ignez.
Todos nós fomos e todos lhe deram presentes legais.
Mas o que você mais gostou, foi do pinto que você roubou da chácara da sua avó Mariz.
O Edmundo, que você batizou assim, era um pinto malhado de preto e branco, feio e fedido.
Você deixou ele descansando um pouco numa caixa de papelão na área de serviço, mas foi por pouco tempo.
Pegou o pinto pelas patas e carregou pra debaixo do bloco, depois que a súbita chuva passou.
O Edmundo estava bem estressado. Não estava confortável no seu colo. E muito menos com um barbante amarrado na pata enquanto você gritava - Edmundo, anda! Vem aqui! - Ele ciscava o chão liso e preto do prédio, talvez rezando por um salvador.
Não houve quem te convencesse que o Edmundo deveria voltar para a chácara, onde ele sempre seria seu - até você voltar, no próximo verão. - Nem mesmo explicando que ele morreria numa viagem de avião até o Rio, congelado com as bagagens. Você chorou e correu - o Edmundo debaixo do braço - até o fim do bloco. O pinto piava, você chorava e os adultos discutiam. A esperança é que amanhã você esqueça o pinto e vá brincar com todos os seus novos brinquedos - aí, Edmundo será libertado de volta.
Eu mesma duvido muito. Aposto que amanhã você acordará e já com Edmundo a tiracolo, irá brincar por aí entre os prédios da quadra da vó Ignez, em mais um dia de verão.
Feliz Aniversário, Júlia!
Beijos da Prima Fabianix
ps - Edmundo se recusou a posar para esta foto. Ele na verdade é uma franga. Odiou o nome e não quer dar entrevistas
16.1.08
Silêncio
É. Não tenho mesmo mais nada a dizer.
Tudo que queria falar, falei.
Escrevi.
Pensei alto.
E cheguei até aqui.
Hoje, não tenho nada pra contar.
Será que esse blog não tem mais serventia?
...
Tudo que queria falar, falei.
Escrevi.
Pensei alto.
E cheguei até aqui.
Hoje, não tenho nada pra contar.
Será que esse blog não tem mais serventia?
...
15.1.08
Fazeduras
O que se faz com tudo que se faz
quando não se faz nada
na hora de fazer?
E se faz de tudo
na hora de simplesmente estar?
quando não se faz nada
na hora de fazer?
E se faz de tudo
na hora de simplesmente estar?
Medo
O budismo acredita que nós não aceitamos ser felizes.
Eu sou assim.
E sei de muita gente que é assim também. Tem medo.
Medo e se esconde.
Medo e mente.
Medo e fica doente.
Medo e finge o oposto.
Medo e cai na gandaia.
Medo e foge da raia.
Medo e bebe demais.
Medo e dorme, come, chora.
Medo e se perde
Medo e passa.
E não se acha
Até passar
O medo.
E se foi o tempo
E com ele o medo
E a vontade de amar.
Eu sou assim.
E sei de muita gente que é assim também. Tem medo.
Medo e se esconde.
Medo e mente.
Medo e fica doente.
Medo e finge o oposto.
Medo e cai na gandaia.
Medo e foge da raia.
Medo e bebe demais.
Medo e dorme, come, chora.
Medo e se perde
Medo e passa.
E não se acha
Até passar
O medo.
E se foi o tempo
E com ele o medo
E a vontade de amar.
Surpresa
As pessoas me surpreendem.
Quando acho que conheço alguém, me decepciono.
Quando imagino que aquela figura do passado mudou, de novo, erro.
Mas nada é melhor que uma boa surpresa.
Quando a pessoa é melhor do que eu pensei.
Quando o jeito de olhar, as coisas que pensa, os sorrisos
Simplesmente surpreendem
E a conversa é fácil
As risadas vêm
E tudo parece como deveria ser
Simples
Possível
Quase tranquilo
Quando acho que conheço alguém, me decepciono.
Quando imagino que aquela figura do passado mudou, de novo, erro.
Mas nada é melhor que uma boa surpresa.
Quando a pessoa é melhor do que eu pensei.
Quando o jeito de olhar, as coisas que pensa, os sorrisos
Simplesmente surpreendem
E a conversa é fácil
As risadas vêm
E tudo parece como deveria ser
Simples
Possível
Quase tranquilo
14.1.08
Requerimento
- Bom dia, eu queria pedir uma garrafa de café sem açúcar aqui pro Núcleo.
- E quem vai beber?
- Quem? Eu. Eu vou beber café sem açúcar.
- Sim, mas você e quem mais?
- Quem mais quiser, claro.
- Mas é que não é assim.
- Como assim não é assim. Qual é o problema de pedir uma garrafa de café sem açúcar? E se eu for diabética por exemplo?
- Mas é porque pra garrafa de café sem açúcar tem que abrir requerimento.
É sério. Isso acabou de acontecer...
- E quem vai beber?
- Quem? Eu. Eu vou beber café sem açúcar.
- Sim, mas você e quem mais?
- Quem mais quiser, claro.
- Mas é que não é assim.
- Como assim não é assim. Qual é o problema de pedir uma garrafa de café sem açúcar? E se eu for diabética por exemplo?
- Mas é porque pra garrafa de café sem açúcar tem que abrir requerimento.
É sério. Isso acabou de acontecer...
Assinar:
Postagens (Atom)