Ouvi uma história de dor contada por uma pessoa tão doce, tão de bem com tudo
Que parei pra pensar
Será que as minhas histórias doces e de bem com tudo
Me farão uma pessoa cheia de dor?
Porque tudo passa rápido
E me ressinto da vida nunca dar tempo pra eu ser simplesmente
Feliz -
Como já sou
Só que em câmera lenta?
13.2.07
9.2.07
Cinema
Meu avô Francisco, agora com 86 anos, vê admirado a enorme caixa chegando pelo elevador.
Meu pai recebe a encomenda e abre com cuidado o papelão.
"O que é isso?" - perguntou meu avô
"É a nova tevê do Bruno" - respondeu meu pai com a cabeça afundada na caixona.
"Televisão?" - meu avô vai chegando perto do gigante.
"É. De quarenta polegas. Grande, né?" - mostra meu pai a tela plana
"Isso aqui é um cinema. Não é mais televisão" - Sentenciou o velho Francisco
Meu pai recebe a encomenda e abre com cuidado o papelão.
"O que é isso?" - perguntou meu avô
"É a nova tevê do Bruno" - respondeu meu pai com a cabeça afundada na caixona.
"Televisão?" - meu avô vai chegando perto do gigante.
"É. De quarenta polegas. Grande, né?" - mostra meu pai a tela plana
"Isso aqui é um cinema. Não é mais televisão" - Sentenciou o velho Francisco
ano III
Amanhã tem três anos que trabalho na TV Câmara.
Essas coisas da minha vida mesmo -
Fiquei exatos 3 meses desempregada - sem dinheiro mas também sem ansiedade. Até cair de para-quedas no Buraco. Aquele mesmo, ao lado do Arquivo da TV.
Se aprendi pouco na arte de montar, aprendi horrores sobre tudo mais.
São três anos vividos mesmo. Com Contos, Focos, Talentos, Brasileiros de todos os jeitos.
De todas as frustrações, a maior para mim é pensar no meu emprego como uma escada para algo melhor, e não um lugar para crescer e ponto.
Fico mal de pensar que, assim que eu achar uma solução, saio correndo daqui. Porque no fundo, não tenho vontade de correr pra lugar nenhum.
Gostaria de ficar aqui, trabalhar nesse mesmo buraco, sem ar, sem luz, com escadas infinitas para o banheiro. Mas criar, inventar, melhorar o que já existe, com as pessoas que já estão ao meu lado.
Pra otimizar as máquinas, os cérebros, dar injeção de ânimo e de profissionalismo no resto do povo que ronda isso aqui.
Eu adoro esse lugar. O clima tenso. O cheiro de política e tinta fresca. Os corredores infestados de roupas feias, balangandans nos pescoços dos papagaios de pirata.
Dá tanto pano pra manga! Tanta razão pra rir alto (e onde mais senão nos porões do bunker, se poder gargalhar com a cabeça caída pra trás???). Tanto motivo pra dietas e dores de barriga.
Eu adoro essas pessoas. Chatinhas, malucas, engraçadíssimas, inteligentérrimas!
E adoro todas as chances de trabalhar - as chances que me tiram das mãos todos os dias em troca de institucionais repetidos, "calhaus", presentes de todas as sortes para pessoas de tanto azar...
Eu lamento os três anos de gesso intelectual que me forçaram a usar aqui. Mas gesso é pra quem tá com algo quebrado. Quando sara, o médico desingessa.
Né?
dedico esse post ao pessoal do Núcleo de Vídeos Especiais da TV Câmara - vocês são as melhores pessoas para dividir o ar que respiro nas tardes infinitas de ares congelados! Tin-tin!
Essas coisas da minha vida mesmo -
Fiquei exatos 3 meses desempregada - sem dinheiro mas também sem ansiedade. Até cair de para-quedas no Buraco. Aquele mesmo, ao lado do Arquivo da TV.
Se aprendi pouco na arte de montar, aprendi horrores sobre tudo mais.
São três anos vividos mesmo. Com Contos, Focos, Talentos, Brasileiros de todos os jeitos.
De todas as frustrações, a maior para mim é pensar no meu emprego como uma escada para algo melhor, e não um lugar para crescer e ponto.
Fico mal de pensar que, assim que eu achar uma solução, saio correndo daqui. Porque no fundo, não tenho vontade de correr pra lugar nenhum.
Gostaria de ficar aqui, trabalhar nesse mesmo buraco, sem ar, sem luz, com escadas infinitas para o banheiro. Mas criar, inventar, melhorar o que já existe, com as pessoas que já estão ao meu lado.
Pra otimizar as máquinas, os cérebros, dar injeção de ânimo e de profissionalismo no resto do povo que ronda isso aqui.
Eu adoro esse lugar. O clima tenso. O cheiro de política e tinta fresca. Os corredores infestados de roupas feias, balangandans nos pescoços dos papagaios de pirata.
Dá tanto pano pra manga! Tanta razão pra rir alto (e onde mais senão nos porões do bunker, se poder gargalhar com a cabeça caída pra trás???). Tanto motivo pra dietas e dores de barriga.
Eu adoro essas pessoas. Chatinhas, malucas, engraçadíssimas, inteligentérrimas!
E adoro todas as chances de trabalhar - as chances que me tiram das mãos todos os dias em troca de institucionais repetidos, "calhaus", presentes de todas as sortes para pessoas de tanto azar...
Eu lamento os três anos de gesso intelectual que me forçaram a usar aqui. Mas gesso é pra quem tá com algo quebrado. Quando sara, o médico desingessa.
Né?
dedico esse post ao pessoal do Núcleo de Vídeos Especiais da TV Câmara - vocês são as melhores pessoas para dividir o ar que respiro nas tardes infinitas de ares congelados! Tin-tin!
Saia de noiva
Meu pai, meu avô, Fábio e eu na hora da sobremesa
Papai conta:
- Na fazenda da minha avó, mãe da minha mãe, ela fazia farinha de mandioca.
Era um mundo de mandioca ralada pelas empregadas. E ia pra um fogo de lenha
numa panela rasa enorme.
Quando a farinha torrava, a gente chegava perto da vovó e pedia -
vó, faz uma sainha de noiva?
A vovó pegava um tanto de açúcar mascavo e jogava por cima daquela farinha ainda torrando. O calor derretia o doce, e ela enrolava a goma de farinha com o açúcar, fazendo um canudinho de açúcar morno.
Era bão demais da conta, sô!
Papai conta:
- Na fazenda da minha avó, mãe da minha mãe, ela fazia farinha de mandioca.
Era um mundo de mandioca ralada pelas empregadas. E ia pra um fogo de lenha
numa panela rasa enorme.
Quando a farinha torrava, a gente chegava perto da vovó e pedia -
vó, faz uma sainha de noiva?
A vovó pegava um tanto de açúcar mascavo e jogava por cima daquela farinha ainda torrando. O calor derretia o doce, e ela enrolava a goma de farinha com o açúcar, fazendo um canudinho de açúcar morno.
Era bão demais da conta, sô!
8.2.07
Da Clarinha
A Clarinha, agora com dois aninhos, dizia pro Bruno:
- Não góto de tlocá de binco porque eu chólo
O Bruno
- Ah, mas chora de dor ou é de manha mesmo?
Ela encosta o queixinho no ombro e olha sobre os cachinhos ruivos
- É de manha...
- Não góto de tlocá de binco porque eu chólo
O Bruno
- Ah, mas chora de dor ou é de manha mesmo?
Ela encosta o queixinho no ombro e olha sobre os cachinhos ruivos
- É de manha...
Aperto
Meu avô foi almoçar com a gente
"Ué, quedê o príncipe?"
"Não veio não, vô"
"Ó, não é pra agradar ocê, mas ô moço ajeitado, sô!"
"É, vô, ele é muito legal"
"Aperrrrta ele, não deixa escapar, viu?"
"Tá, vô, pode deixar"
Tô apertando de levinho...
"Ué, quedê o príncipe?"
"Não veio não, vô"
"Ó, não é pra agradar ocê, mas ô moço ajeitado, sô!"
"É, vô, ele é muito legal"
"Aperrrrta ele, não deixa escapar, viu?"
"Tá, vô, pode deixar"
Tô apertando de levinho...
Calada
Essa minha necessidade de falar
Falar falar falar
E não só das coisas bobas
A minha vontade de dizer
das coisas do coração
do que é profundo
do que dói
do que é lindo
das coisas da minha alminha mesma
Parece que quando falo
Ao invés de esvaziar
Enche mais
Clareia
Respiro melhor
Sinto melhor
Amo melhor
Sei que às vezes
é chato para o outro
Até demais
Mas tem dias que não dá mesmo
Preciso, não aguento
é irresistível
Dizer o que sinto
O que penso do que sinto
O que sinto do que penso
Falar até calar
Até dormir
Sonhar
Por isso,
se quando falo é importuno
ou demais
ou sem mais
Me abraça
Que com o calor do silêncio
Cada palavra que some
Transforma a vontade da fala
No vácuo do beijo
Falar falar falar
E não só das coisas bobas
A minha vontade de dizer
das coisas do coração
do que é profundo
do que dói
do que é lindo
das coisas da minha alminha mesma
Parece que quando falo
Ao invés de esvaziar
Enche mais
Clareia
Respiro melhor
Sinto melhor
Amo melhor
Sei que às vezes
é chato para o outro
Até demais
Mas tem dias que não dá mesmo
Preciso, não aguento
é irresistível
Dizer o que sinto
O que penso do que sinto
O que sinto do que penso
Falar até calar
Até dormir
Sonhar
Por isso,
se quando falo é importuno
ou demais
ou sem mais
Me abraça
Que com o calor do silêncio
Cada palavra que some
Transforma a vontade da fala
No vácuo do beijo
7.2.07
Rotina
Nos estudos,
descanso da Tevê
No trabalho
um tempo dos livros
No namorado
o pouco tempo livre
pra nada,
tão bom...nada...
descanso da Tevê
No trabalho
um tempo dos livros
No namorado
o pouco tempo livre
pra nada,
tão bom...nada...
3.2.07
Dúvida
Por uns instantes, uma dúvida:
E se não for nada disso?
E se der errado? Se eu não conseguir?
Qual o próximo passo?
São tantos querendo o mesmo que eu!
Um desânimo, um medo, uma tristeza
A sensação de estar só
E que só eu posso fazer o que preciso
A solidão do caminho
Não tem mapa
Não tem manual de instrução
Todo dia, eu tenho que inventar as horas
Isso me dá um medo enorme
De finalmente ser gente grande
E não ter colo nenhum pra acalmar minha decepção
Minha vida, quem faz sou eu
Mas no fundo no fundo,
Minha vida, queria que outro fizesse por mim
E se não for nada disso?
E se der errado? Se eu não conseguir?
Qual o próximo passo?
São tantos querendo o mesmo que eu!
Um desânimo, um medo, uma tristeza
A sensação de estar só
E que só eu posso fazer o que preciso
A solidão do caminho
Não tem mapa
Não tem manual de instrução
Todo dia, eu tenho que inventar as horas
Isso me dá um medo enorme
De finalmente ser gente grande
E não ter colo nenhum pra acalmar minha decepção
Minha vida, quem faz sou eu
Mas no fundo no fundo,
Minha vida, queria que outro fizesse por mim
1.2.07
Vó
O cheiro do hospital
O azulejo verde
A comida marrom
Minha avó tem gosto do algodão úmido
Que molha a boca fina, seca, branca
O cabelo branco
Os olhos pretos
Já enxergam além?
Murmura, vózinha
Palavras, ruídos (de dor?)
Pedidos (de ir?)
Ela falou "me leva, me leva"?
Talvez "minha neta"?
Não sei
Não estou aqui
O estômago aperta
A porta é aberta
A mulher preta de branco
Entra
E eu, correndo
Fujo
Não é da morte
Mas de sofrer a dor do outro
E não sei se é pura vaidade
Ou a certeza absoluta que
Eu no lugar dela,
Seria muito muito melhor
O azulejo verde
A comida marrom
Minha avó tem gosto do algodão úmido
Que molha a boca fina, seca, branca
O cabelo branco
Os olhos pretos
Já enxergam além?
Murmura, vózinha
Palavras, ruídos (de dor?)
Pedidos (de ir?)
Ela falou "me leva, me leva"?
Talvez "minha neta"?
Não sei
Não estou aqui
O estômago aperta
A porta é aberta
A mulher preta de branco
Entra
E eu, correndo
Fujo
Não é da morte
Mas de sofrer a dor do outro
E não sei se é pura vaidade
Ou a certeza absoluta que
Eu no lugar dela,
Seria muito muito melhor
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