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14.12.14

só

Hoje é dessas noites que todo o cansaço não me faz dormir em paz. Imagino que o afago de um abraço, um beijo mais afetuoso sejam antídotos para o medo que o acordar me inspira. Mas, por hoje, vou fechar os olhos com força entre as lágrimas - que nem sei mais se são pela doente ou por mim mesma - e torcer para o sono vencer a tristeza mais rápido que de costume.

É que me deu um medo imenso de morrer assim, só. Envelhecer, adoecer, morrer, sozinha, sozinha.
E no caminho disso, que eu ainda espero ser longo, seguir vivendo todas as despedidas também sozinha. Sem um abraço na entrada de casa. Sem uma conversa no escuro dos travesseiros. Nada. Só isso mesmo, anos e anos de lágrimas no escuro.

Uma noite como essa, é difícil pra caramba apagar as luzes, fazer silêncio, fechar os olhos e dormir, só.
Nos piores cenários que pintei, nunca pensei na minha vida adulta com uma solidão tão brutal.
São tantos anos que já sei: hoje, eu mesma acendo a vela, faço o chá, arrumo a cama. Eu mesma levanto no meio da noite, do pesadelo, e pego um copo de água.

Agora, não é diferente: mais uma noite que eu preferia ter um par... mas, é isso: deixa eu me levar para vestir um pijama quente, entrar debaixo dos lençóis macios e me encolher na cama grande sussurrando, como todas as noites antes que, quem sabe, um dia desses, o vento muda, a sorte gira e a vida me faça par, parceira. Quem sabem na próxima despedida que a vida trouxer, eu tenha um abraço calado em casa para mim, só para mim.




7.3.13

Avalanches programadas

Ouvi dizer que há um tipo de técnica na engenharia que se usa disso: na iminência de uma possível avalanche ou desabamento em certo local, uma equipe antecipa o evento. Calculam, projetam e finalmente, provocam uma avalanche que aconteceria acidentalmente. Isto evita o transtorno como elemento surpresa e possibilita um certo controle num fenômeno natural.

Tem horas que acho que já já cai uma avalanche na minha cabeça.
Em outros momentos, sinto o coração prestes a explodir, antecipando um desabamento incontrolável de emoções.
Até aqui, tudo sob controle. Sinceramente, neste exato momento, duvido muito que algum acidente acabe com a minha lucidez e presença de espírito.

Mas, admito que a imagem de antecipar uma avalanche é bem tentadora. Provocar o transbordamento de um rio de sentimentos tem um lado positivo: a sensação de um mínimo de controle, já que transbordou no momento que escolhi e posso me previnir de eventuais danos colaterais.
Vou escolher ouvir todas as músicas, ler todas as cartas, ver dois ou três filmes e passar horas aos prantos, num misto de tristeza, raiva, e também resignação e alívio - afinal, escolher viver tudo isso na hora certa demonstra uma maturidade que eu não tinha experimentado até aqui - essa coisa adulta de se saber sofrendo, sofrer, e ainda assim, estar no presente.
Sem subterfúgios, sem depressão e sem euforia. Só a dor. E ponto.

Estar no olho do furacão, ou a da avalanche, para seguir com a metáfora. Estar, mas não SER.
O que me resta é contemplar o que sinto e penso confiando sempre que os estragos causados serão menores do que os ganhos.
E de que uma hora, tudo vira outra coisa. Porque tudo acaba. E tudo começa.
Avalanche que vira estrada. Estrada que vira caminho. Caminho que vira luz.

para Irma.

17.2.13

Quero mais, saúde!

Prezados, o sumiço, para variar, se dá muito pela preguiça e menos pela falta de ideias.
Hoje escrevo pra sair da inércia e contar pra geral a novidade do ano de 2013.
Sim, amigos, ainda estamos no mês dois, mas minha vida já teve algumas revoluções.

E a que eu vou dividir com vocês hoje é: estou diabética.
É isso. Super foda, mas é isso aí.
Depois de ouvir da médica que não dava mais para adiar o uso de medicamentos, fui para casa chorando e pensando na merda que minha vida será.

Minha diabetes é do tipo 1, que é aquela adquirida e que não pede o uso da insulina (ufa, sem injeções diárias!). O que pega mesmo no meu caso é o quanto de insulina que o meu pâncreas produz: o açúcar entra no meu sangue, eu produzo a insulina necessária; meu corpo não entende que eu já fiz essa primeira produção e manda o coitado do pâncreas começar tudo de novo. Daí que eu produzo insulina demais, e não de menos. Atualmente, estou produzindo o dobro da quantidade de insulina necessária.

Passei os últimos 3 anos monitorando a situação e jurando pra médica e pra mim mesma que faria atividade física diariamente - e dançar a noite toda uma vez por semana não contou; sexo também não foi com a frequência necessária para pontuar nesse quesito - e também prometi cuidar da alimentação: o que eu cumpri direitinho, salvo os porres homéricos, ai.

Estou há três semanas tomando 500 mg de Glifage diaraimente, um composto de metformina. De acordo com a bula, é bom pra controlar essa média insulina/glicose. Os dez primeiros dias foram infernais: dores de cabeça ininterruptas, diarréia e enjoo. O milagre aconteceu depois: com uma dieta mais equilibrada - não virei um robozinho, mas juro que estou empenhada - o remédio e os chás estão fazendo maravilhas: estou mais disposta, menos sonolenta e quase sem preguiça (mentira!)

Agora que tudo está quase sob controle, resta minha disciplina, vontade e determinação (rooonc!)
Procuro uma atividade física que me faça feliz, me dê a motivação de persistir diariamente e não pese no meu bolso. Até o final de fevereiro, bato o martelo entre a hidroginástica (roooonnnc!) a natação (ai, canseira de tanta infra) e a dança (por que eu só gosto de coisa de rica?) - estou em fase experimental. Amanhã, vou nadar.

Depois de tanto mimimi, confesso: ainda me sinto fragilizada pela notícia, sendenta pelas cervejas e chocolates não ingeridos e duvidosa sobre o quão disciplinada eu conseguirei ser. Mas isso é assunto para outros posts.











17.6.10

Partidas e chegadas

Despedir-se de alguém é sempre doído, nunca estamos prontos.
Ainda não dei um adeus definitivo a ninguém que amo de verdade, estão todos ao alcance do meu abraço.

Não acredito que as experiências que acumulei até aqui com decepções e tristezas, com partidas e finais infelizes sejam necessariamente uma prévia do que virá com a morte de um ente amado.

Ainda não sobrevivi à morte de um amado, mas já superei inúmeros grandes amores, longas amizades, decepções surpreendentes. Dói diferente, sem dúvida. Mas dói.
No entanto, estas dores da vida nos preparam para as próximas que serão semelhantes. Apesar de sentir com força e intensidade, sigo a vida mais serena, mais igual, mais como se nada tivesse me acontecido.
Isso é bom? Ou só sinal da idade?

Com a morte, duvido. Não sei se morrer alguém nos prepara para a ida de um próximo. Com a morte dos meus avós pelo menos, uma despedida foi sempre diferente (e doída) da outra.

E tenho certeza que é por isso que a vida me poupou, até agora, dessa tragédia que é perder alguém pra valer. Eu não tenho forças para pensar nisso.
Sim, morro de medo da morte. Da minha nem tanto. Mas assistir quem tanto amo sair desse meu mundo é insuportável!

A única coisa que me parece absoluta é que a morte chega. E quando ela chega, há de ser uma hora terrível de lágrimas e luto. Mas, ao chegar, é imprescindível vivê-la. Com toda a intensidade e tempo que ela demanda. (e cada um tem seu jeito e sua forma).

Olhar a dor da morte na hora que ela chega é um ato de fé na vida e de coragem no amor que permeia o momento.
Não tem receita, não tem remédio. Só vivendo pra ver.

com amor, para lucyana.

5.5.10

Coração

O meu, parou. Está congelado.
Suspeita de infarto.
Não no meu peito.
Mas no peito do meu pai.

Achei que era uma dor mais fácil, já que é no coração de outrem.
Nada.
Dor doída.
Sem fome.
Sem sono.
Sem vontade nenhuma.
Só mesmo de trocar de lugar.

Eu aguento fácil um quarto gelado e tubos nos braços.
Meu pai. Ele não suporta nada disso não, gente.

Muda ele de lugar: amanhã ele vai ao meu trabalho e eu faço mil outros exames.
Ou troca nossos corações.
Prometo cuidar do dele bem melhor do que cuido do meu.

Do jeito que for, que volte logo a bater o meu coração.
do jeito de sempre, igualzinho.
ou melhor até
quando o coração do meu pai sair do susto
voltar à guerra.
pulsar junto
junto com o meu.

13.4.10

O Guri

Acordei. Acordei do que seria a morte, mais uma vez algo deu errado. Não quero me rasgar o peito com uma lâmina cega de cólera, nem ter meu crânio estilhaçado por uma bala, não quero sangue. Além disso, esses dois modos são arriscados demais, posso sobreviver com sequelas e cicatrizes. Seja como for, seja limpo, dê o mínimo de trabalho aos outros.

Merda! Mijei na cama, to velho pra isso, ou ainda muito novo. Minha camisa serve como pano de chão, acho que dá para absorver o pouco de urina que tem. Não enxergo nada nessa escuridão, a cortina não revela se é dia ou se é noite. Sinto que dormi alguns dias, sinto um estranho gosto de vinho e cigarro na boca.

Já sei. O vinho fazia parte do meu rito de passagem, de uma vida para um nada. Era um cabernet sauvignon com comprimidos de dormonid, valium e lexotan. Maldita ressaca, essa mistura quando não mata te faz mal. Misturemos sempre com moderação, com a moderação necessária para nos matar.

Preciso dormir mais um pouco, mas nesse mijo úmido não dá, talvez o sofá de dois lugares em frente à TV, um sofá não pode ser pior que a sobrevida. Se um livro de auto-ajuda fala em 12 passos, eu preciso de um pouco mais, acho que até a sala são uns vinte cinco. Nesses vinte cinco, sigo cambaleando e batendo entre as paredes do corredor, esquerda, direita, esquerda, direita, passo a passo, até cair sublimemente como uma pluma cai do céu ou como um corpo que cai do oitavo andar.

Durmo mais oito horas seguidas, levanto e pego a minha água com gás, bem gelada com uma fatia de limão, sinto a garganta rasgar com o choque da água fria e do gás concentrado. Meu corpo flutua e pesa mais de uma tonelada ao mesmo tempo, é a gravidade brincando com o meu ser. São meus neurotransmissores e minhas bainhas de mielina que brincam comigo como teatro de sombras . É a vida, ou o resto que resta dela. Ligo o estéreo e seleciono a minha seleção de jazz, a ocasião pede luz de velas longe de mim e um jazz suave, quase sombrio, pode ser também um folk rock de um cantor suicida. Durmo mais algumas horas, sonho pouco, sonhos estranhos, alguns com sexo, outros com monstros e candidatos à presidência.

Não sei quanto tempo se passou desde o meu rito, passando pelo meu fracasso, até o momento atual. Fracasso... O insucesso é o fracasso dos otimistas, talvez um dia seja insucesso mijar na cama.

Preciso de um café, um bom café, não daqueles de padaria feitos às pressas com kilos de açúcar, quero um bom grão, um café bem tirado da máquina, para tomar sem açúcar, sentindo a pureza, pensando em poucas coisas puras que ainda há nesse mundo, talvez nem esse café seja puro. Mas prefiro não pensar muito nisso.

No caminho da cafeteria vejo um guri com uma cara chorosa, sozinho em frente ao banco, não sei quantos anos tem o pequeno piá, talvez oito ou dez, é impossível diferenciar crianças quando elas começam a ler aos 6 anos até começar a fumar maconha aos 16. Nesse período todos são iguais, alguns mais iguais que os outros.

- E aí guri, tá perdido? Pergunto com um certo tom de preocupação, não tão preocupado por ele estar perdido, talvez mais preocupado pela responsabilidade de ter que cuidar dele até ele encontrar o pai.

Com uma voz chorosa e presa, como quem sofresse em silêncio uma dor inexplicável, sem tamanho, ele responde:

- ´Tô esperando o meu pai, ele foi pegar dinheiro pra fazer a compra do mês. Já deve ‘tá saindo.

- É perigoso um garoto da sua idade ficar sozinho aqui.

- Ele disse que seria rápido. Porque o senhor está triste?

-Por que me chama de senhor?

- Meu pai me disse pra chamar gente mais velha que a gente de senhor.

-Entendo. Estou triste. Minhas paredes estão caindo e eu estou tropeçando nos meus passos, as pontes pelas quais passei caíram.

- Como assim, senhor?

-Esquece. Esse moletom foi você que escolheu?

-Mais ou menos. Meu pai queria que eu pegasse esse.

O garoto tímido, alto pra idade dele e bem articulado, apesar de poucas palavras, usava um moletom flanelado com uma estampa chamativa, era laranja e azul, uma combinação bem infantil para um garoto com postura de homem, pelo olhar desse guri dava pra ver que pela vida já havia passado maus bocados. O guri de cabeça baixa fazia um vai e vem com a perna.

-Seu pai percebeu que você escolheu essa roupa pra agradá-lo.

-Não sei, senhor. Eu uso pouco essa roupa, não gosto de usar perto dos meus amigos, uso só quando saio com meu pai. Queria um com desenho preto e vermelho. Meu pai tá me chamando. Tchau!

Alguns meses se passaram, minha esperança na vida ainda era fraca. A vida não passa de uma sucessão de acontecimentos repetitivos com pequenas variações imperceptíveis. As cores são dadas pelo eterno conflito do bem e do mal, esquerda e direita, copo meio cheio e copo meio vazio, estampas laranja e azul, e preta e vermelha. A vida tem sentindo na contradição, na antítese e no paradoxo.

Estava decidido Juntei receitas de diversos médicos, e brindes de alguns traficantes. Dessa vez o meu ritual seria com Jack Daniels, o melhor Bourbon, teria Valium, Dormonid e Lexotam. Começaria pelo Lexotan por ser mais fraco, curtiria a onda, a dormência dos olhos. Depois passaria para o Valium, minha boca ficaria mole, as palavras sem sentido e tudo teria um tom cômico. Depois abriria o Jack, sem gelo, como deve ser um Bourbon, e acabaria com o Dormonid. Sentiria meus dedos adormecerem, meus pés, meus braços e minhas pernas...uma gradação de dormência e esperança em não mais palpitar o coração.

Quando saí da farmácia vi o guri. Era um piá, um pequeno guri, mas estava tão alto, tão crescido. Sem barba e com pensamentos e devaneios e usava um moletom. Dessa vez preto e vermelho, discreto, ideal pra sua idade, ou suposta idade pela altura que tinha. Parecia feliz caminhando com passos fortes e largos. Às vezes penso se era um guri ou um homem. Ele passou por mim, me derrubou no chão, minha sacola de compras da mão direita voou longe, minha garrafa caiu no chão mas não quebrou. O Rapaz pediu desculpas, foi bastante educado perguntou se eu estava bem, mas não me reconheceu. Quando levantei, procurei meu kit suicídio e vi que estava no meio da rua, sendo atropelado várias vezes por carros e dentro de uma poça d’água. Merda!

Pelo menos o pequeno herói de moletom com estampa preta e vermelha me deixou com a garrafa de Jack e mais um dia de vida, talvez ache uma linda mulher pra tomar comigo. Talvez chegue em casa e escreva um bilhete na geladeira “ carpe diem”, quem sabe eu não escreva em algum outro dia “carpe vitae”.

de b.varjão

beijo, querido!

28.1.10

Resposta

Numa tentativa de consolar uma amiga, mandei uma carta perguntando como ela estava segurando a onda, já que passa por um momento bem difícil.
E foi ela quem me consolou com a resposta abaixo:

"(...) Quanto a onda grande, acho que quando passamos dos quarenta praticamente só encontramos ondas enormes, cada vez maiores.
Mas assim como dentro do avião não temos nada a fazer a não ser confiar no piloto, nas grandes tempestades podemos confiar profundamente que sob essas ondas enormes encontra-se um mar profundo e sereno.
Acho linda essa metáfora da mente confiante.
Mente pura, sincera, profunda e verdadeira.
Não a minha, mas a Mente do Buda que veio a mim surpreendendo-me nesse momento."

15.7.09

Francisco

Meu avô paterno está doente.
A noite passada, vomitou sangue. Muito.
Fui vê-lo em abril, assim que voltei de Istambul.
E retornei hoje para um homem totalmente transformado.
Muito mais magro, pálido, sem som na voz rouca.
Ele segurou minha mão e disse:
- Ontem, achei que ia viajar de vez
Beijei sua testa, sua face ossuda:
- Vô, você tem que esperar os bisnetos que darei ao senhor!
Ele sorriu.
Eu chorei. (porque não lhe darei bisnetos? porque não há como ele esperar? por que eu chorei?)
Não tive coragem de dizer muito mais.
Medo dele ouvir na voz, o choro contido.
Nariz escorrido.

- Eu andei distante, nunca tive em fé em nada.
E só para mim, respondi:
- Nunca esteve distante vô. O senhor só não tinha a trena que mede a distância entre Deus e o senhor.
Ontem, o senhor achou a trena e leu a distância. Levou um susto de saber que está bem mais perto que pensava...só isso.

Talvez a morte seja a trena que nos dá a real medida da nossa distância do Divino. Que é curta, a vida toda. Mas só com a morte nos damos conta disso.

...

- Eu li muito, eu pensei muito. E nunca acreditei em nada. Em nada. Mas ontem, eu acreditei. Eu reconheço que estava errado. E que a vida tem mistérios e nós somos feitos de alma. - ele suspirou.
- Eu vou encontrar com a Antônia, ela vai estar flutuando - avisa meu avô Francisco com olhos cerrados, a voz rouca e baixa.
- Ela está entre Oliveiras e vai olhar para mim e dizer - ô, ocê demorou, sô! - e fecha os olhos sorrindo, quase parando de respirar...

...

É possivel que eu seja mesmo muito pouco evoluída já que nessa vida, pouca coisa de terrível me aconteceu até aqui.
A vida é sábia. Desenhou os eventos de tal forma que me preparo para as despedidas dos mais próximos, dizendo adeus aos mais velhos primeiro.
Sendo assim, tenho a suave sensação de que me despedir do meu avô hoje é um jeito de me preparar para um dia, dizer adeus aos meus pais...porque eu não suportaria me desperdir de um deles primeiro, numa inversão da ordem natural, que para mim, é a única suportável nessa vida...

19.11.08

Tchau, Thiago

Meu peito está angustiado e revoltado.
Thiago, um colega da TV, faleceu ontem à noite.
Erro médico? Falta de assistência, diagnóstico, medicação?

Após suspeitas de um monte de coisas, finalmente descobriram que ele tinha um fungo.
Sim, um fungo na corrente sanguínea. Veio das fezes do morcego, o fungo.

Ele ficou de um hospital pra outro, até ser transferido para uma UTI com falência múltipla dos órgãos.

Faltou tempo? Faltou boa vontade? Faltou um bom médico de plantão?

Pessoas da própria TV dividiram o valor da ambulância que o levou de um hospital para a única UTI disponível, acionada com um telefone para um deputado federal do DF.

Eu dei dez reais para a coroa de flores. Não fui ao enterro.

Se ele fosse meu irmão, não teria morrido. Eu tenho seguro saúde, que cobre despesas em hospitais particulares e UTI.
Se ele fosse um servidor da TV - e não um terceirizado, ele não teria morrido. Porque teria o privilégio do dinheiro, do acesso.
Se ele fosse mais velho, talvez tivesse morrido mais cedo. Mas com 23 anos, o corpo resiste fortemente a todas as intempéries e luta por mais tempo, com mais força.
Se ele não fosse o Thiago, estaria vivo.
Mas ele não está.
Para mim, fica a revolta com este sistema de merda de saúde pública.
Fica minha inabilidade de expressar tudo que penso em atitude.
Fica um vazio, uma tristeza mesmo.
O Thiago era tudo de bom. Aqui na TV era a pessoa que mais me impressionava - bonito, prestativo, atencioso, bem humorado, e totalmente apaixonado pela profissão.

Tchau, Thiago. Eu sinto muito.

26.11.07

Um diagnóstico, alguém?

Espasmos de dor pelo corpo inteiro,
especialmente na região do tórax e abdomen
Boca seca
Enjôo, náusea, falta de apetite
Rápida perda de peso - 14 quilos em um mês
Sem febre
Sem convulsão
Intestino parado
Estômago em cãimbras
Tremor pelo corpo, especialmente pernas e braços
Dificuldade de locomoção - uso de cadeira de rodas
Tosse seca
Fraqueza,
tontura
cansaço

Nenhum remédio para dor
Suspensa a medicação para convulsão
e também para tireóide

...

e então? alguém pode diagnosticar o que a minha mãe tem?

6.9.07

Facada

Eu dormia no sofá da sala porque sabia que algo aconteceria naquela madrugada.
Deitei e fingi dormir.
Chegou a madrugada e ruídos na sala de estudos.
Meu pai estava no computador.
Ouvi passos, conversas, e como se fosse um sonho dentro do sonho:
Minha mãe mata meu pai. Um facada na barriga. Um som fraco, duro.
Ela vem me acordar.
Mas eu já estava de olhos abertos, só fingi abri-los.
Já era dia, e na sala, ela chora e me conta - matei teu pai.
Eu caio no chão de dor. E choro lágrimas que não escorrem.
Eu tenho ódio da minha mãe, eu não entendo o porquê, eu não sei o que fazer.
Meu pai está ao lado dela, ouvindo tudo.
Eu quero contar ao Bruno, mas sozinha.
Desço o túnel que cruza os Eixos, e lá no meio, um homem morto e seus dois assassinos.
Sei que me matarão então conto minha história para distraí-los.
- Minha mãe matou meu pai, uma facada no estômago. Estou indo contar para o meu irmão.
Pronto, saio do buraco, despisto os assassinos, chego ao prédio e só então me dou conta que meus pais estavam comigo o tempo todo.

Acordo com as batidas do meu coração e a vontade de chorar.
Meu telefone tocou às 8h. Era meu pai.

31.8.07

Tumor

- O cérebro explodiu - ela contou - na mesa de cirurgia, ele teve uma trombose cerebral. Tinha um saco de lixo preso embaixo da cabeça dele, e um tanto assim de sangue no fundo.
Ele chegou para a internação e assim que entrou, a esposa atendeu o celular. Era da empresa, ele tinha sido demitido há dois dias, meteu a mão na cara do sujeito e saiu da sala. Ia viajar pra Brasília, assuntos particulares. Veio pra morrer e talvez já soubesse. Por isso o tapa na cara do chefe.
O filho marcou o casamento para o ano passado. Mas o irmão da noiva morreu num ataque de abelhas africanas. Edema de glote, nem chegou ao hospital. Deixou uma menina de três meses na barriga da recém-esposa-mãe. Ninguém acreditou que a gravidez vingaria depois do trauma. Mas Maria Luiza nasceu até de olhos azuis.
Desmarcado o casamento, souberam tempos depois do câncer no pai do noivo. Incompetência, rebeldia, medo, deixaram passar. O câncer fez metástase. Marcaram o casamento para outubro, mais cedo o pai se chatearia - estão pensando que eu vou morrer? Pra quê tanta pressa? -
e veio fazer outros exames, para só então saber do tumor. Era no cérebro. A cirurgia era inevitável (e talvez desprezível).
E veio toda a família. E rezaram durante a cirurgia. E o médico até chorou.
O corpo foi de volta pra cidade natal de avião. Só custa setenta centavos o quilo levar a morte de novo pra casa.

29.5.07

Póp

É assim: tudo certo, tudo encaminhado
E de repente? póp.
Acabou tudo.

Sem mais nem menos.
Nenhuma explicação

Póp

1.2.07

Vó

O cheiro do hospital
O azulejo verde
A comida marrom

Minha avó tem gosto do algodão úmido
Que molha a boca fina, seca, branca

O cabelo branco
Os olhos pretos
Já enxergam além?

Murmura, vózinha
Palavras, ruídos (de dor?)
Pedidos (de ir?)

Ela falou "me leva, me leva"?
Talvez "minha neta"?
Não sei
Não estou aqui

O estômago aperta
A porta é aberta
A mulher preta de branco
Entra
E eu, correndo
Fujo

Não é da morte
Mas de sofrer a dor do outro

E não sei se é pura vaidade
Ou a certeza absoluta que
Eu no lugar dela,
Seria muito muito melhor

27.10.06

Hora de morte.

Se no final tudo der certo, será muito parecido com o que tenho hoje.

Então, se este é o final da história,
Chegou minha hora de morrer.

Eu quase bati o carro.
E quando tudo anda bem assim,
Acho de verdade que é minha hora de partir.

Nunca fui de sonhar muito.
O que faço, invento pra ter vontade de
Se abrir mão
Ou deixar sem fazer,
Não haverá tanta diferença assim

Se causei impacto
Ou não
Isso também passará

Perdi meu medo de ser esquecida
Não me lamento se outros seguiram em frente
E eu fiquei aqui

Esperando essa hora de agora
De morrer
Feito tudo que fiz
e deixado tanto a fazer

12.9.06

11 de setembro de 2002

O telefone da ilha de edição é para mim.
Do outro lado, o Ethan me explica que quer aproveitar a distância para terminar o namoro.
Cinco anos.
Se não fosse assim, ele não teria coragem e poderia se arrepender.
Eu não sou divertida o suficiente,
Quero coisas que ele não quer.
Muita pressão essa coisa de estar junto por tanto tempo.
Me ama, mas quer ficar sozinho.
Melhor assim.
Depois ele me manda minhas coisas, que estão na nossa casa.
Minha vida guardada nas gavetas.
O pó dos livros nas estantes, a pilha de CDs no chão.

Na sala cheia de gente, desligo olhando o vazio.
Vazio.
Fundo.
Sem cor.
Vazio.

Ainda bem que eu te amei, Ethan. Você inventou em mim a elasticidade do amor. Por isso, cabe no meu coração pra sempre.

11.9.06

15 de setembro de 2001

Quando a luz dos balcões começaram a acender, fiquei de pé. Eu precisava urgente fazer xixi. Levantei depressa, senti a tontura dos tantos dias sem comer. O homem japonês guardou meu lugar. Na volta do banheiro, a multidão se aglomerava nas correntinhas ao redor dos guichês. Pus minha mochila nas costas. Minhas pernas tremiam. Os militares armados nos forçavam para trás. Eram seis guichês, uns doze atendentes. A fila se desmembrou sem ordem. Cheguei no guichê quatro.
- Preciso ir para o Brasil
- Só quem tem passagens para hoje
- A minha era para o dia 12 de setembro
- Então, lista de espera
- Esperar por qual vôo?
- Terá que aguardar nova abertura do espaço aéreo. Este será temporário.
- Não posso aguardar. Minha mãe está na mesa de cirurgia nesse exato momento. - A voz sumiu. Engoli duas vezes. Os americanos não gostam de drama.
Um outro atendente
- A lista de espera está encerrada
- Eu não posso entrar em lista de espera nenhuma senhor. O que pode fazer por mim?
- Nada.
- Eu não vou sair da sua frente enquanto não me der uma solução.
- Um momento.
- Pronto. Aqui está sua passagem. Embarque imediato. Boa viagem.
Assim. Desse jeito. Olhei ao redor. Não encontrei o homem japonês. Nem a paulista do orelhão.
Liguei a cobrar para o Brasil. Chego em São Paulo ainda hoje. Eu sei. Eu sei. Eu sei. Um beijo.
O vôo mais longo do planeta.
O homem mais americano e chato do universo.
A melhor melhor melhor aterrisagem do espaço sideral.

Senti meu coração. Parei de sentir minhas pernas. Eu flutuei até o desembarque. Caí no chão e beijei o piso preto sujo, encardido, imundo do aeroporto internacional de Gaurulhos, São Paulo.
Meu tio Jorge, me abraçou.
- A sua mãe saiu da cirurgia e está na UTI. Correu tudo bem.
- Eu derramei cinco dias de lágrimas sem sal, sem água, sem cor.
O cheiro do café forte.
O pão de queijo do quiosque.
O delicioso som do português em todas as bocas que eu olhava.

Eu nunca mais saio do Brasil.

14 de setembro de 2001

Dormi muito.
O céu ainda cinza.
O cheiro mais forte.

Tomei um banho.
Comi uma banana e vomitei.
Bebi um chá morno e fraco.
Não sentia a dor de cabeça, as mãos trêmulas eram desde ontem

A CNN afirmava que o espaço aéreo estava fechado.
A ABC confirmava a abertura do espaço aéreo para aeronaves domésticas.
Liguei para o Gaudêncio. Vou para o aeroporto. O espaço aéreo está aberto.
- É só para aernoaves em trânsito. Aquelas que foram forçadas a aterrisar.
- Eu sei. Mas eu vou para o JFK. A chave vai ficar debaixo do tapete. Te ligo do Brasil. Um beijo.

Demorei muito para pegar um taxi. Nenhum motorista queria me levar ao aeroporto, fora da cidade. Todos gritavam que estava tudo fechado.
O dia estava fechado. Começou a chover. Eu não queria chorar.

Um jovem jamaicano me levou até a entrada do aeroporto discutindo comigo a viagem toda. Me deixou debaixo da placa JFK - e peguei o micro ônibus que circula dentro daquela mini cidade de companhias aéreas. As grandes, todas fechadas. Em cada parada, descia, pedia informações. Meus pés doíam do frio. A chuva era mais intensa. Eu não sentia sede.
No balcão da Varig, a passagem de primeira classe tinha fila de espera. O vôo sairia no dia seguinte. Todos dispostos a esperar. A minha mãe vai morrer e eu vou estar na fila de espera da Varig.
Peguei o ônibus e fui ao guichê da JetBlue. Entrei na fila. Na minha vez:
- Por favor, vocês estão voando hoje?
- Sim, senhora
- Para Miami?
- Para Fort Lauderdale
- Hoje?
- Sim
- Mas o próximo vôo está lotado
- Não senhora. Ele sai em 30 minutos
- Eu quero uma passagem

Liguei a cobrar para o Brasil. Estou embarcando para Fort Lauderdale. De lá pego um carro alugado para Miami e vejo o que acontece.
Ao meu redor, como eu, as pessoas estavam super bem.
Aluguei o único carro disponível no aeroporto da capital da Flórida - uma limosine preta extra luxo de seis portas. E contei pro motorista que saí de Nova York para estar na cirurgia da minha mãe no Brasil. Ele voou para Miami.
O aeroporto de Miami estava em guerra.
Pelotões do exército andavam em duplas portando sub metralhadoras.
Não havia o que comer. Refrigerantes, só morno. Ou água dos bebedouros.
As filas gigantes eram para o primeiro vôo do dia seguinte - o destino - São Paulo, Brazil.
Um homem de Tóquio que tentou chegar até Montreal. Uma família de Miami que voltava para La Paz para sempre. Eu.
Liguei a cobrar para o Brasil. Estou na fila de espera. Fique calma, mamãe, não estou mais na linha de fogo. Quando abrir os olhos aí, estarei do seu lado. Minha única lágrima foi enxugada com um lencinho brasileiro, da moça paulista na fila do orelhão.
A noite no chão passou tranquila. Quase todos dormiam. Eu mudei de posição. Dei a volta e inventei uma outra fila, para um outro guichê. Eu tenho certeza que amanhã cedo, quando abrirem os balcões, mais de uma fila será atendida. O homem japonês me seguiu.

Se a minha morresse amanhã cedo, na mesa de cirurgia, tenho certeza - seria um sonho ruim. Então, decidi simplesmente não dormir.

13 de setembro de 2001

Não sei se dormi.
Abri os olhos com o barulho ensurdecedor de aviões rasantes.
O céu muito nublado. Inacreditável. Será que vai nevar?

Os telefones estavam funcionando, a internet também.
As pontes da cidade estavam abertas. O trânsito estava normal.
Falei com Ethan. E com o Brasil. Calma, fria, estava indo ao Serviço de Imigração.

Peguei o metrô até a 14th Street e a 7a. Avenida. Dali, os trens não saiam mais.
Estava em frente a um hospital - uma fila imensa na porta. Doadores de sangue.

Peguei o primeiro ônibus que passou. Lotado. De bombeiros. Um silêncio absoluto.
O ônibus parou na Varick St. com a Houston St. Dali, ninguém mais passava. Só os bombeiros.
Era longe para caminhar até o Serviço de Imigração.
O que eram aqueles caminhões frigoríficos em fila?
Caía do céu uma cinza fina, como de cigarros. Mas bem mais fina.
Um cheiro de incêndio.

Um policial de pé na esquina da Broadway me avisou:
- Não pode passar
- Senhor, eu tinha uma entrevista marcada no Serviço de Imigração. Viajo ainda hoje para o Brasil. Minha mãe está doente.
- Sinto muito, entendo o que quer dizer, mas não há aviões, não há expediente no Serviço de Imigração.
- Eu sei, mas eu tenho que estar no Brasil até amanhã. Meu vôo sai hoje à noite do JFK.
- Não senhora, o seu vôo não terá permissão para sair. Eu sinto muito.
- Tá bom, mas eu preciso ir até o Serviço de Imigração para perguntar o que posso fazer para viajar sem a autorização devida.
- Senhora, sinto muito, a senhora não tem como viajar porque o espaço aéreo do país está fechado. Não há vôos. O Serviço de Imigração está fechado por medidas de segurança nacional
- O senhor acha que eu vou poder chegar até o Serviço de Imigração?
- Não senhora, está tudo fechado.
- O senhor sabe quando eles vão abrir o espaço aéreo?
- Não senhora. - ele tentou sorrir.
Eu não consegui chorar.

Voltei a pé até a Times Square. Sessenta quadras.
O vento cinza, a cidade cinza, o barulho insuportável das sirenes de bombeiros.

Eu precisava falar com o Serviço de Imigração. Parei em inúmeros orelhões. Todos quebrados.
Uma lufada de vento mais forte bateu no meu rosto. Estava sem chapéu, sem luvas, sem cachecol.
E veio o cheiro.
O cheiro de cabelo que queima. Como quando eu era criança e o fósforo queimou meus cílios.
O cheiro de gente, de pele. O cheiro de bicho. Como quando pulava na piscina e a pele quente de sol esfriava rápido.

Meu estômago virou. Era fome, era sede, era o cheiro?
Minhas pernas estremeceram. Minhas entranhas doíam.

No apartamento, arrumei uma mochila.
Separei todos os papéis de imigração e o passaporte.
Dinheiro em cash.
Mandei um email para o Ethan.
Liguei para o Gaudêncio. Venha para cá. Eu vou viajar para o Brasil.
Liguei para o Brasil. Com meu irmão do outro lado, pensei na estratégia mais inteligente possível. Alugar um carro e atravessar o país até o México.
Liguei para todas as locadoras da região. Nenhum carro disponível.
Liguei para a primeira na Filadélfia, a duas horas de trem de Nova York. Reservei um Toyota simples no meu nome para o dia seguinte de manhã. Milhagem livre, tanque cheio. Para devolução em Austin, Texas.
Sentei e esperei.
O Gaudêncio chegou, sentou e esperou. E foi embora.
Desliguei a TV.
O cheiro em todo lugar.
As sirenes em todo lugar.
Aviões rasantes sumiam e apareciam.

A cama ficou pequena, o frio eu nem sentia.
Os riscos da rua no teto tomaram outras formas.
Fiz tudo que quis, sempre. Não me arrependo de nada até aqui.
A roupa lavada, comida na geladeira, as contas do mês pagas.
Um amor vivido, dois países queridos, tantas pessoas inesquecíveis...

Fechei os olhos sorrindo.
É. Seria um bom momento de morrer.

11 de setembro de 2001

Acordei antes do despertador.
Mesmo morando há seis anos em Nova York, o céu super azul anil sempre me enganava no outono. Olhei do nono andar para a árvorezinha da esquina. Não ventava. Uau. Talvez fosse um dia quente enfim...
Entrei e saí do banho.
Liguei a CNN para checar o tempo mais uma vez, agora pela meteorologia. Estava feliz. Mesmo preocupada com a mamãe no Brasil, era sempre bom viajar pra casa.

Olhando a TV de pé, com a escova de dentes dentro da boca, vi as Torres Gêmeas atingidas por um avião.
"Um piloto maluco! Num dia tão azul, como pôde acertar em cheio assim?"
Liguei para mamãe.
"Olha, caiu um avião aqui. Mas eu tô viva, tá tudo bem. Vou pro trabalho e depois vou no Serviço de Imigração. Não, não é terrorismo mãe." - ai que raiva que eu tinha dessa paranóia brasileira de meter os americanos em tudo de ruim que acontecia no mundo! - "Foi só um acidente. Deixa eu ir. Beijo."
Desliguei e engoli o café quente. Não era um acidente, claro.

Desci até a 96th Street para pegar as fotos.
"Isso é coisa dos judeus! Revanche de tantos anos de falta de apoio dos judeus de cá com os de lá" - me afirmou o homem da lojinha de fotos. A pele cor de canela, o turbante, o sotaque oriental. Poderia ser muçulmano. Ou um indiano sik, que também usam turbantes para guardar os cabelos longos. Para mim, tanto faz. Morando nessa panela de gente do mundo todo, eu não enxergava mais as diferenças como tal. Era tudo gente.

O metrô estava estranhamente vazio. Adorei ficar sentada a viagem toda até a 59th Street.
Subi as escadas do metrô pulando os degraus.

E vi a fumaça no céu. Preta, densa, longe, mas muito visível. Cara de fábrica limpando as chaminés, pensei.
O saguão do prédio da ABC Network vazio.

O elevador vazio.
O hall de entrada da Disney, lotado de pessoas assistindo a TV. Durante o meu percurso no metrô, mais um avião atingira as Torres.


Fiquei ali olhando pra cena que já tinha visto de manhã. Num estalo, entrei no meu email e mandei uma mensagem rápida para o Brasil. Estava bem, a cidade estava normal. Tentei ligar a cobrar, não completou.

Um colega saiu correndo encontrar a esposa que trabalhava na primeira torre atingida. Eram cinquenta quadras, por que não pegava um taxi? Porque o trânsito estava interditado até maiores informações.
Sobre o quê? Como assim?


Foi então que o Pentágono surgiu no noticiário.

Fiquei ali. Eu acho estão atacando os Estados Unidos. Eu acho que começou uma guerra.
Não consegui mais ligar para o Brasil.


O administrador do prédio pediu nossos nomes e telefones de contato. Assinamos uma lista imensa e evacuamos o prédio pelas escadas de serviço. Ameaça de bomba? Como assim? Por quê?
Era hora do almoço mas eu não sentia fome. Nem medo.
O trânsito parado, metrôs e ônibus. Uma multidão de pessoas andando.

Uma cara de feriadão.
Andei as quase cem quadras. Não senti as bolhas nos pés.
O dia estava lindo mesmo. Mas agora, o vento soprava e eu não sentia os olhos ardendo.

Liguei a TV, liguei pra lista de amigos. Só consegui falar com o Gaudêncio, que desceu as trinta quadra que nos separavam para sentar diante da TV comigo.

Ficou noite. Era hora de jantar. Eu não tinha fome. Nem medo.
Eu perdi meu horário no Serviço de Imigração. Mas não posso cancelar a viagem.

Consegui uma conexão na internet e mandei mais um email para o Brasil.
Os telefones estavam mudos.
A TV repetia tudo de novo. Desliguei.
Deitei na cama grande demais.
Não senti o frio pelas frestas dos lençóis.
O reflexo da noite no teto. O ruído dos aviões rasantes disparavam meu coração.

Não coloquei o despertador na cabeceira.
Eu acordaria antes de tudo.
Criei o dia seguinte na cabeça:
Tinha que chegar no Serviço de Imigração, pegar minha permissão de viagem, comprar as lembrancinhas pro pessoal, terminar de arrumar a mala.
Tinha que ligar em Londres, tinha que me despedir do Gaudêncio, tinha que falar no Brasil.

Eu tinha que dar um jeitinho brasileiro pra esse terrorismo e aterrisar no Brasil até o dia 15 de setembro.

Eu não ia morrer assim - sozinha, de noite, sem sono, num ataque terrorista.