Esse fim de ano, para mim, já terminou. 2017 começou entre quinta passada e hoje, em alguma suspiro meu.
Essa foi uma semana de silêncios intensos e algumas revelações. Das mais importantes, decidi meditar todos os dias.
Em uma semana, meditei cinco dias, com alguns intervalos para as confraternizações.
Criei uma pequena rotina em que tenho conseguido parar por 25 minutos quando chego em casa do trabalho.
A meditação tem uma função estranha para mim: ela me liberta da soneca das cinco da tarde - horário em que eu tenho um sono quase incontrolável - e também me dá insights, perspectivas e esperança. Esse misto de funções me é uma desculpa perfeito para praticar.
Aliás, quero corrigir: eu não faço meditação, eu tenho sempre a intenção de meditar - porque de fato, a mente em silêncio só existe contada em frames! Mas a intenção - sentar-me diante do Buda, acender a vela, o incenso, e seguir visualizando as imagens do Sutra da Terra Pura, isso sim, me estimula e traz esperança.
No processo da meditação, passo a maior parte dos 25 minutos, eu diria uns 20, fazendo uma força enorme para não fazer força nenhuma, parar de pensar, parar de sentir, parar de chorar (o caso de hoje). E a minha mente, em algum momento, desfalece e finalmente se entrega a esse processo - e se cala. É mais ou menos como aprender a boiar sobre as águas de uma piscina, ou no mar: não é bem a força que você faz que te ajuda. É talvez a força que você não faz!
A intenção no budismo é uma premissa muito recomendada. Toda ação tem que ter uma intenção, um valor atribuído - de preferência, a boa intenção, para gerar o bom carma. Meditar tem que ter intenção. Mas intenção não é sinônimo de técnica, força ou repetição. Porque se fosse, eu já era Buda.
O processo é como tudo na vida: em ondas, em fases, uma coisa assim, bem orgânica, como eu e você.
Hoje, voltei feliz para casa porque a meditação me esperava. Mas quando comecei a meditar, chorei muito, me distraí com as lágrimas, com o catarro que saía do nariz, e com o fato de que eu estava perdendo meu tempo precioso de meditar com a tristeza que sinto das tantas coisas que me rodeiam.
Acho que são esses momentos de insight que são tão preciosos e que levo para a vida afora: me perceber sofrendo enquanto é hora de dirimir o sofrimento! Isso
me pareceu uma perda de tempo! E de fato, o sofrimento se esvaiu quando eu concluí a perda de tempo que ele é! E, olha: minha mente ficou em silêncio por exatos 3 frames! Uma luz dourada desceu sobre a minha cabeça, chegando até a minha garganta. Senti meu corpo muito presente e ouvi os ruídos lá fora, a música, e a quietude do meu coração. Essa breve experiência me emocionou profundamente e de novo, saí do estado meditativo para me envaidecer da minha própria conquista. Foi um misto de gratidão com orgulho e ó - acabou a mente quieta! Não importa, sei que é assim o meu caminho do silêncio porque eu o tenho trilhado há dez anos.
Mais dez anos passarão, talvez eu jamais consiga mais de 5 frames de silêncio em toda minha vida. Mas por agora, 2017 começa (já) com sentimentos, pensamentos e emoções como nuvens num céu de brisa leve: dissipando, a cada intenção de meditar, tudo de ruim que eu faço para mim e para o mundo; silenciando, mesmo que em conta gotas, todo carma ruim que trago comigo e cessando toda ação que vem de um lugar nefasto do meu ser.
Gashô e feliz ano novo.
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15.12.16
11.12.16
2016: o ano de muitos fins
2016 termina com uma lista infinita de decepções.
Nem falar do golpe de Estado do Brasil, do novo presidente americano, da morte de grandes nomes, como Suassuna.
Bem, agora que já mencionei, minhas grandes decepções moires foram de foro íntimo: pessoas que me surpreenderam porque se mostraram ser outras pessoas comigo ou com o contexto.
Foi um ano de tapas na cara, um após o outro. De coração partido, surpresas, traições e trapaças.
Todo mês, sofri de um doença: ouvido, garganta, estômago, coluna, ombros, bexiga, e tudo de novo.
A cada mês me descobri mais forte e convicta e também mais ímpar, estranha e diferente do que é normal, tradicional, comum.
No decorrer do ano, percebi que me perco rápido de mim mesma e demoro muito para me realinhar. Tanto que dezembro chegou e me dei conta que preciso urgente sacudir a poeira e dar a volta por cima de mim mesma, daquela que eu fui esse ano inteiro: cega com as minhas demandas, surda com as coisas do meu coração.
Acordei com o peito apertado, mas fui pro sol. E prometi um monte de coisas pra mim:
voltar a escrever, voltar a meditar, voltar a fazer uma coisa de cada vez. Voltar.
Voltar pra mim.
Porque eu sei quem sou, com defeitos e lentidões. E é para dentro de mim que vou voltar, toda hora, toda instante, até sarar de tudo que foi o ano, a vida até aqui. E com todas as cicatrizes à mostra, sigo para mais um ano: mais inteira, mesmo que lenta e errante.
17.9.16
Tudo ao mesmo tempo agora
Abro essa página para escrever sobre um sem número de coisas desordenadas. Tenho sentido essa dificuldade imensa de organizar a ideias no papel há tempos já. Talvez por isso parei de escrever aqui, e aí, num ciclo vicioso, a falta do escrever me desorganizou ainda mais. Outro ponto, eu não faço uma boa leitura há um bom tempo também. Sempre fragmentada em capítulos, textos soltos, dois parágrafos no máximo. Vida líquida - minha capacidade de silenciar minha rotina e me dedicar a duas coisas que gosto muito: ler e escrever.
Agora nas férias, me propus a ler textos acadêmicos, e também trouxe na mala o Amor Líquido, do Bauman. É aquela história - leitura difícil não deveria ser companhia pras férias; mas se não for nas férias, que horas vou ler um livro tão difícil?
Eu li, e doeu. Muitas tristes verdades confirmadas e revistas. Nunca ficou tão claro para mim o quanto me sinto deslocada, despertencida, ignorada no mundo.
Viajar sozinha é sempre uma exceção, mas Fortaleza foi gritante - vai ganhar o título de Tradição Família e Propriedade da capital mineira porque af, que triste: o machismo, a homofobia, o chovinismo, o patriarcalismo.
Se viajar sozinha já é um ponto fora da curva, ser mulher, solteira e quarentona, éter e classe média então. Em cada cenário, reafirmo minha abdução de outro planeta para a Terra. Quero o impossível na vida a dois, no trabalho, nos espaços comuns: as cidades. E recebo de volta comentários machistas de homens com alianças procurando as putas da praia; um golpe de Estado que hierarquiza relações que mal existem profissionalmente; me calo diante de afirmações da classe alta do quanto é importante o filho sair com um segurança particular dirigindo um carro importado blindado.
É, eu sou toda errada.
Não tenho mais convicções para compartilhar porque essa palavra foi abolida dos vocabulários dos grupos de whats up - inclusive o grupo da família, que era antes uma chuva de bons dias e boas noites, agora é só insulto e provocações políticas que ninguém lê de verdade mas se sente mal.
E nem contemporizar os ânimos eu quero mais. Não mais.
Estamos todos carentes.
E é uma carência sem fim, um poço seco e sem fundo, porque não importa a atenção, ela vem sempre tarde demais, pouca demais, de quem não importa demais.
É hora do meu embarque.
Volto pra casa mais insegura, com mais medo e mais tristezas que quando cheguei. O Brasil é grande, as pessoas estão somente sub-existindo, e vamos mudar de assunto porque o próximo programa de tv vai começar, chegou mensagem no whats up e uma foto pra subir no instagram. Depois a gente vê essa coisa de viver.
Agora nas férias, me propus a ler textos acadêmicos, e também trouxe na mala o Amor Líquido, do Bauman. É aquela história - leitura difícil não deveria ser companhia pras férias; mas se não for nas férias, que horas vou ler um livro tão difícil?
Eu li, e doeu. Muitas tristes verdades confirmadas e revistas. Nunca ficou tão claro para mim o quanto me sinto deslocada, despertencida, ignorada no mundo.
Viajar sozinha é sempre uma exceção, mas Fortaleza foi gritante - vai ganhar o título de Tradição Família e Propriedade da capital mineira porque af, que triste: o machismo, a homofobia, o chovinismo, o patriarcalismo.
Se viajar sozinha já é um ponto fora da curva, ser mulher, solteira e quarentona, éter e classe média então. Em cada cenário, reafirmo minha abdução de outro planeta para a Terra. Quero o impossível na vida a dois, no trabalho, nos espaços comuns: as cidades. E recebo de volta comentários machistas de homens com alianças procurando as putas da praia; um golpe de Estado que hierarquiza relações que mal existem profissionalmente; me calo diante de afirmações da classe alta do quanto é importante o filho sair com um segurança particular dirigindo um carro importado blindado.
É, eu sou toda errada.
Não tenho mais convicções para compartilhar porque essa palavra foi abolida dos vocabulários dos grupos de whats up - inclusive o grupo da família, que era antes uma chuva de bons dias e boas noites, agora é só insulto e provocações políticas que ninguém lê de verdade mas se sente mal.
E nem contemporizar os ânimos eu quero mais. Não mais.
Estamos todos carentes.
E é uma carência sem fim, um poço seco e sem fundo, porque não importa a atenção, ela vem sempre tarde demais, pouca demais, de quem não importa demais.
É hora do meu embarque.
Volto pra casa mais insegura, com mais medo e mais tristezas que quando cheguei. O Brasil é grande, as pessoas estão somente sub-existindo, e vamos mudar de assunto porque o próximo programa de tv vai começar, chegou mensagem no whats up e uma foto pra subir no instagram. Depois a gente vê essa coisa de viver.
13.5.13
Casamento: o que não é. E o que deveria ser.
(escrevi esse texto a pedido do meu primo Vinícius, para o casamento dele com a Mari. O pessoal gostou tanto que decidi publicar aqui também)
Boa noite a todos. Para quem não me conhece, eu sou a Fabiana, a prima mais velha do Vinícius.
Boa noite a todos. Para quem não me conhece, eu sou a Fabiana, a prima mais velha do Vinícius.
Eu
fico honrada de subir aqui pra falar pra vocês num dia tão especial
pra todos nós. Mas, eu não sei nada sobre casamento já que ainda
não me casei! Então, o que posso dizer com certeza é o que o
casamento não é ou pelo menos, não deveria ser.
O
casamento não é comparável a nada: não é como viajar para um
lugar nunca visitado. Não é assumir um novo emprego. Não é fazer
um novo amigo. Não é. Não pode ser. Porque se fosse igual a
qualquer outra coisa, seria bem mais simples de se fazer entender ou
explicar por que diabos as pessoas resolvem se casar.
Sei
de casais que fazem do casamento a solução financeira para a vida.
Somam os salários e apostam que dali pra frente, tudo na vida será
ao redor do acúmulo material. Não antecipam o tamanho do buraco
emocional que se cava quando a única meta na vida é o TER e não o
SER.
Também
conheço gente que junta as escovas de dentes porque chegaram a uma
idade cabalística – em geral, para as mulheres, são os malditos
30 anos. Aí, quando os anos passam e trazem todas as frustrações
de uma escolha feita por motivos errados, a tristeza que assola
aquele lar nunca supera as boas lembranças.
E
há pessoas que juram de pé junto que vão resolver todos os dias
solitários com uma outra pessoa ao lado pro resto da vida. Fazem
daquele parceiro um quase refém da felicidade ilimitada. O mártir
da alegria esfuziante. Estas pessoas se esquecem que somos sós.
Nascemos assim e morremos assim. O parceiro que escolhemos para a
vida não deve ser o responsável por uma descoberta tão íntima:
aquela que leva à felicidade plena e que é feita da paz espiritual.
Sim, é a paz de espírito que faz calar a solidão de sermos
humanos.
Deve
haver mil outros motivos para se explicar um casamento. Mas, o único
que me convence, é o amor: aquele que se constrói todo dia, num
tripé de confiança, admiração e respeito.
E
aí, quando se fala em amor, somos todos cientistas e práticos! Por
isso, ouso dizer que eu sei, por exemplo, que todo
casamento deve ser o ponto de chegada de um percurso bem sucedido do
amor. O percurso do casal, como parceiros, e o percurso subjetivo,
muito pessoal, que cada um teve que trilhar – sempre inspirados
pelo amor próprio e pelo amor mútuo.
E
uma relação construída no amor, traz a liberdade: que é o
estatuto mais sonhado, mais intrinsicamente atrelado a nós, seres
humanos. Sem amor, não há liberdade. Sem liberdade, não há
casamento.
A
Mari e o Vi estão livres. Livres porque escolheram o amor. Este amor
construído na admiração, no respeito e na confiança mútuos. Amor
que ao chegar até aqui, no altar de um casamento, demonstra que teve
fôlego para para tantos desencontros e reencontros, desilusões, e
reencantos. É a combinação de decisões, escolhas, caminhos
juntos. É quase um milagre divino!
E
fazendo parte desse momento, eu, você, a gente acaba se sentindo um
pouco mais livres também, seja lá qual for a nossa prisão. Ao ver
o Vi e Mari tão autênticos, tão apaixonados, nos sentimos um
pouquinho mais à vontade para ser o que somos: humanos e livres para
amar!
Mari
e Vi, vocês começam hoje a construção de um novo caminho: um
caminho cravejado de alegria, fé e liberdade. Um caminho a ser
trilhado com o único sentimento que transforma e constrói: o amor.
Lembrem-se
de confiar, respeitar e admirar a si próprios e um ao outro.
Lembrem-se que a paz na alma cala a solidão.
Mas
principalmente, lembrem-se que a liberdade de escolherem estar juntos
é a maior prova de amor que existe entre vocês!
Sejam
felizes, meus queridos, imensamente felizes!
Fabiana
Ferreira – maio 2013
12.3.13
De 75 a 100%
Em mais um mergulho na piscina, ganho novo fôlego com esse insight.
Com as minhas idas à natação, religiosamente, sem ironia, nadar virou um tipo de meditação. O processo é semelhante àquele de sentar em silêncio e contemplar o agora: eu nado os primeiros 15 minutos com a cabeça cheia de pessoas, coisas, eventos. Acho que depois de um tanto, o cansaço físico toma conta da mente. E finalmente, quase no final, nada disso importa e o movimento, a água, a respiração, tudo entra num único fluxo.
E ali mesmo, nadando e engolindo água, inventei a teoria dos 75%.
Nunca fui péssima aluna. Mas nunca fiz questão de ser a melhor. Então, sempre fui a aluna 75%.
Como bailarina, também estava sempre um pouco acima da média - mas longe de ser a primeira bailarina.
Nas aulas - tediosas - de piano, eu desisti: acho que na música, eu mal cheguei ao meu desempenho 75%...
No curso de inglês - que eu amava a cada ano mais - raramente passava dos 80% nas notas. É que eu sabia que dava pra passar, tava bom demais.
E nos concursos públicos, estar na média 75% me garantiu meu emprego atual. Mas, pelos meus cálculos, o emprego dos meus sonhos está, no mínimo, no patamar do desempenho 85%.
E ontem, tive essa súbita iluminação: sabendo da teoria dos 75%, se eu alcançar esse fluxo meditativo antes, ficará mais fácil chegar a um desempenho mais alto!
Fiz o teste: quando antes o professor me dava 400 metros de missão, eu nadava 300 no máximo. Aí, batia uma preguiça, um cansaço. Faltava só um tiquinho, mas eu deixava esse tiquinho pra lá. Ontem, decidi que era esse tiquinho que me daria o fluxo contínuo. 300 metros são o aquecimento. São os 100 metros restantes que dão exatemente o que preciso. Só que pra chegar lá, preciso inevitalmente fazer os 300 iniciais.
Descobri que racionalizando os 75% de cada tarefa dada, eu não preciso de estímulo para fazer tudo. Eu só preciso dessa força extra faltando 25% da tarefa!
Foi um truque infantil, mas funcionou lindamente. Ao contrário do que fiz a vida toda - de querer acabar logo todo projeto que me proponho - comecei ontem o caminho inverso: para toda missão aquática, pensei que eram os últimos minutos da natação que contavam para o que realmente preciso: chegar ao fluxo.
Assim foi feito: nadei 45 minutos redondos. Poucas paradas, sem roubar nenhum metrinho, mas também sem justificar que - ah, já tá bom esse tanto que nadei - não.
O bom é sentir o fluxo. E o fluxo só chega no final. Pelo menos até agora, é no final. Me aguardem.
Com as minhas idas à natação, religiosamente, sem ironia, nadar virou um tipo de meditação. O processo é semelhante àquele de sentar em silêncio e contemplar o agora: eu nado os primeiros 15 minutos com a cabeça cheia de pessoas, coisas, eventos. Acho que depois de um tanto, o cansaço físico toma conta da mente. E finalmente, quase no final, nada disso importa e o movimento, a água, a respiração, tudo entra num único fluxo.
E ali mesmo, nadando e engolindo água, inventei a teoria dos 75%.
Nunca fui péssima aluna. Mas nunca fiz questão de ser a melhor. Então, sempre fui a aluna 75%.
Como bailarina, também estava sempre um pouco acima da média - mas longe de ser a primeira bailarina.
Nas aulas - tediosas - de piano, eu desisti: acho que na música, eu mal cheguei ao meu desempenho 75%...
No curso de inglês - que eu amava a cada ano mais - raramente passava dos 80% nas notas. É que eu sabia que dava pra passar, tava bom demais.
E nos concursos públicos, estar na média 75% me garantiu meu emprego atual. Mas, pelos meus cálculos, o emprego dos meus sonhos está, no mínimo, no patamar do desempenho 85%.
E ontem, tive essa súbita iluminação: sabendo da teoria dos 75%, se eu alcançar esse fluxo meditativo antes, ficará mais fácil chegar a um desempenho mais alto!
Fiz o teste: quando antes o professor me dava 400 metros de missão, eu nadava 300 no máximo. Aí, batia uma preguiça, um cansaço. Faltava só um tiquinho, mas eu deixava esse tiquinho pra lá. Ontem, decidi que era esse tiquinho que me daria o fluxo contínuo. 300 metros são o aquecimento. São os 100 metros restantes que dão exatemente o que preciso. Só que pra chegar lá, preciso inevitalmente fazer os 300 iniciais.
Descobri que racionalizando os 75% de cada tarefa dada, eu não preciso de estímulo para fazer tudo. Eu só preciso dessa força extra faltando 25% da tarefa!
Foi um truque infantil, mas funcionou lindamente. Ao contrário do que fiz a vida toda - de querer acabar logo todo projeto que me proponho - comecei ontem o caminho inverso: para toda missão aquática, pensei que eram os últimos minutos da natação que contavam para o que realmente preciso: chegar ao fluxo.
Assim foi feito: nadei 45 minutos redondos. Poucas paradas, sem roubar nenhum metrinho, mas também sem justificar que - ah, já tá bom esse tanto que nadei - não.
O bom é sentir o fluxo. E o fluxo só chega no final. Pelo menos até agora, é no final. Me aguardem.
7.3.13
Avalanches programadas
Ouvi dizer que há um tipo de técnica na engenharia que se usa disso: na iminência de uma possível avalanche ou desabamento em certo local, uma equipe antecipa o evento. Calculam, projetam e finalmente, provocam uma avalanche que aconteceria acidentalmente. Isto evita o transtorno como elemento surpresa e possibilita um certo controle num fenômeno natural.
Tem horas que acho que já já cai uma avalanche na minha cabeça.
Em outros momentos, sinto o coração prestes a explodir, antecipando um desabamento incontrolável de emoções.
Até aqui, tudo sob controle. Sinceramente, neste exato momento, duvido muito que algum acidente acabe com a minha lucidez e presença de espírito.
Mas, admito que a imagem de antecipar uma avalanche é bem tentadora. Provocar o transbordamento de um rio de sentimentos tem um lado positivo: a sensação de um mínimo de controle, já que transbordou no momento que escolhi e posso me previnir de eventuais danos colaterais.
Vou escolher ouvir todas as músicas, ler todas as cartas, ver dois ou três filmes e passar horas aos prantos, num misto de tristeza, raiva, e também resignação e alívio - afinal, escolher viver tudo isso na hora certa demonstra uma maturidade que eu não tinha experimentado até aqui - essa coisa adulta de se saber sofrendo, sofrer, e ainda assim, estar no presente.
Sem subterfúgios, sem depressão e sem euforia. Só a dor. E ponto.
Estar no olho do furacão, ou a da avalanche, para seguir com a metáfora. Estar, mas não SER.
O que me resta é contemplar o que sinto e penso confiando sempre que os estragos causados serão menores do que os ganhos.
E de que uma hora, tudo vira outra coisa. Porque tudo acaba. E tudo começa.
Avalanche que vira estrada. Estrada que vira caminho. Caminho que vira luz.
para Irma.
Tem horas que acho que já já cai uma avalanche na minha cabeça.
Em outros momentos, sinto o coração prestes a explodir, antecipando um desabamento incontrolável de emoções.
Até aqui, tudo sob controle. Sinceramente, neste exato momento, duvido muito que algum acidente acabe com a minha lucidez e presença de espírito.
Mas, admito que a imagem de antecipar uma avalanche é bem tentadora. Provocar o transbordamento de um rio de sentimentos tem um lado positivo: a sensação de um mínimo de controle, já que transbordou no momento que escolhi e posso me previnir de eventuais danos colaterais.
Vou escolher ouvir todas as músicas, ler todas as cartas, ver dois ou três filmes e passar horas aos prantos, num misto de tristeza, raiva, e também resignação e alívio - afinal, escolher viver tudo isso na hora certa demonstra uma maturidade que eu não tinha experimentado até aqui - essa coisa adulta de se saber sofrendo, sofrer, e ainda assim, estar no presente.
Sem subterfúgios, sem depressão e sem euforia. Só a dor. E ponto.
Estar no olho do furacão, ou a da avalanche, para seguir com a metáfora. Estar, mas não SER.
O que me resta é contemplar o que sinto e penso confiando sempre que os estragos causados serão menores do que os ganhos.
E de que uma hora, tudo vira outra coisa. Porque tudo acaba. E tudo começa.
Avalanche que vira estrada. Estrada que vira caminho. Caminho que vira luz.
para Irma.
27.2.13
Rio Bravo ou Onde começa o inferno
Não há melhor escapismo que uma sala de cinema.
Num dia nublado em Brasília, entre inúmeros títulos, fiz a escolha perfeita: a Mostra Tarantino no CCBB exibia Onde começa o inferno. Li a programação rapidamente, não tinha a menor ideia do que se tratava o filme.
As luzes se apagam e a primeira cena é um plano aberto, uma fila de caubóis descendo um despenhadeiro, uma música no estilo mexicano. Sorri no escuro.
Rio Bravo é um dos meus favoritos dentro dos favoritos! E nunca soube o título em português, já que vi este faroeste em 1988, na sala de estar da minha então casa, em Ohio, Estados Unidos.
Meu intercâmbio para aquele país foi no meio do segundo grau e dei sorte: depois de ser recusada por uma primeira família, um casal sem filhos, dois cães e um gato, me acolheram e me mostraram o melhor do centro-oeste americano: em especial, a predileção pelos filmes do velho oeste. Na época, eles tinham tantos filmes quantos livros enfileirados na estante - fitas VHS que ocupavam duas paredes. Quase todos americanos. Quase todos Westerns. Em um ano, é possível que eu tenha assistido a praticamente toda aquela videoteca.
De volta à sala de cinema ontem à noite, me dei conta do quanto cada pedacinho da minha vida me fez a pessoa que sou: meu amor pelos filmes, sem saber, foi profundamente influenciado por um ano triste, infeliz, solitário, no interior de Ohio.
Sou feita de remendos, cada um alinhavado de um jeito difícil de ver pelo lado certo da costura. Do avesso, cada fio vai a lugares inimagináveis. O cinema e Ohio, na minha vida, só se conectaram ontem, no escuro de uma noite de verão chuvosa.
Num dia nublado em Brasília, entre inúmeros títulos, fiz a escolha perfeita: a Mostra Tarantino no CCBB exibia Onde começa o inferno. Li a programação rapidamente, não tinha a menor ideia do que se tratava o filme.
As luzes se apagam e a primeira cena é um plano aberto, uma fila de caubóis descendo um despenhadeiro, uma música no estilo mexicano. Sorri no escuro.
Rio Bravo é um dos meus favoritos dentro dos favoritos! E nunca soube o título em português, já que vi este faroeste em 1988, na sala de estar da minha então casa, em Ohio, Estados Unidos.
Meu intercâmbio para aquele país foi no meio do segundo grau e dei sorte: depois de ser recusada por uma primeira família, um casal sem filhos, dois cães e um gato, me acolheram e me mostraram o melhor do centro-oeste americano: em especial, a predileção pelos filmes do velho oeste. Na época, eles tinham tantos filmes quantos livros enfileirados na estante - fitas VHS que ocupavam duas paredes. Quase todos americanos. Quase todos Westerns. Em um ano, é possível que eu tenha assistido a praticamente toda aquela videoteca.
De volta à sala de cinema ontem à noite, me dei conta do quanto cada pedacinho da minha vida me fez a pessoa que sou: meu amor pelos filmes, sem saber, foi profundamente influenciado por um ano triste, infeliz, solitário, no interior de Ohio.
Sou feita de remendos, cada um alinhavado de um jeito difícil de ver pelo lado certo da costura. Do avesso, cada fio vai a lugares inimagináveis. O cinema e Ohio, na minha vida, só se conectaram ontem, no escuro de uma noite de verão chuvosa.
17.2.13
Quero mais, saúde!
Prezados, o sumiço, para variar, se dá muito pela preguiça e menos pela falta de ideias.
Hoje escrevo pra sair da inércia e contar pra geral a novidade do ano de 2013.
Sim, amigos, ainda estamos no mês dois, mas minha vida já teve algumas revoluções.
E a que eu vou dividir com vocês hoje é: estou diabética.
É isso. Super foda, mas é isso aí.
Depois de ouvir da médica que não dava mais para adiar o uso de medicamentos, fui para casa chorando e pensando na merda que minha vida será.
Minha diabetes é do tipo 1, que é aquela adquirida e que não pede o uso da insulina (ufa, sem injeções diárias!). O que pega mesmo no meu caso é o quanto de insulina que o meu pâncreas produz: o açúcar entra no meu sangue, eu produzo a insulina necessária; meu corpo não entende que eu já fiz essa primeira produção e manda o coitado do pâncreas começar tudo de novo. Daí que eu produzo insulina demais, e não de menos. Atualmente, estou produzindo o dobro da quantidade de insulina necessária.
Passei os últimos 3 anos monitorando a situação e jurando pra médica e pra mim mesma que faria atividade física diariamente - e dançar a noite toda uma vez por semana não contou; sexo também não foi com a frequência necessária para pontuar nesse quesito - e também prometi cuidar da alimentação: o que eu cumpri direitinho, salvo os porres homéricos, ai.
Estou há três semanas tomando 500 mg de Glifage diaraimente, um composto de metformina. De acordo com a bula, é bom pra controlar essa média insulina/glicose. Os dez primeiros dias foram infernais: dores de cabeça ininterruptas, diarréia e enjoo. O milagre aconteceu depois: com uma dieta mais equilibrada - não virei um robozinho, mas juro que estou empenhada - o remédio e os chás estão fazendo maravilhas: estou mais disposta, menos sonolenta e quase sem preguiça (mentira!)
Agora que tudo está quase sob controle, resta minha disciplina, vontade e determinação (rooonc!)
Procuro uma atividade física que me faça feliz, me dê a motivação de persistir diariamente e não pese no meu bolso. Até o final de fevereiro, bato o martelo entre a hidroginástica (roooonnnc!) a natação (ai, canseira de tanta infra) e a dança (por que eu só gosto de coisa de rica?) - estou em fase experimental. Amanhã, vou nadar.
Depois de tanto mimimi, confesso: ainda me sinto fragilizada pela notícia, sendenta pelas cervejas e chocolates não ingeridos e duvidosa sobre o quão disciplinada eu conseguirei ser. Mas isso é assunto para outros posts.
Hoje escrevo pra sair da inércia e contar pra geral a novidade do ano de 2013.
Sim, amigos, ainda estamos no mês dois, mas minha vida já teve algumas revoluções.
E a que eu vou dividir com vocês hoje é: estou diabética.
É isso. Super foda, mas é isso aí.
Depois de ouvir da médica que não dava mais para adiar o uso de medicamentos, fui para casa chorando e pensando na merda que minha vida será.
Minha diabetes é do tipo 1, que é aquela adquirida e que não pede o uso da insulina (ufa, sem injeções diárias!). O que pega mesmo no meu caso é o quanto de insulina que o meu pâncreas produz: o açúcar entra no meu sangue, eu produzo a insulina necessária; meu corpo não entende que eu já fiz essa primeira produção e manda o coitado do pâncreas começar tudo de novo. Daí que eu produzo insulina demais, e não de menos. Atualmente, estou produzindo o dobro da quantidade de insulina necessária.
Passei os últimos 3 anos monitorando a situação e jurando pra médica e pra mim mesma que faria atividade física diariamente - e dançar a noite toda uma vez por semana não contou; sexo também não foi com a frequência necessária para pontuar nesse quesito - e também prometi cuidar da alimentação: o que eu cumpri direitinho, salvo os porres homéricos, ai.
Estou há três semanas tomando 500 mg de Glifage diaraimente, um composto de metformina. De acordo com a bula, é bom pra controlar essa média insulina/glicose. Os dez primeiros dias foram infernais: dores de cabeça ininterruptas, diarréia e enjoo. O milagre aconteceu depois: com uma dieta mais equilibrada - não virei um robozinho, mas juro que estou empenhada - o remédio e os chás estão fazendo maravilhas: estou mais disposta, menos sonolenta e quase sem preguiça (mentira!)
Agora que tudo está quase sob controle, resta minha disciplina, vontade e determinação (rooonc!)
Procuro uma atividade física que me faça feliz, me dê a motivação de persistir diariamente e não pese no meu bolso. Até o final de fevereiro, bato o martelo entre a hidroginástica (roooonnnc!) a natação (ai, canseira de tanta infra) e a dança (por que eu só gosto de coisa de rica?) - estou em fase experimental. Amanhã, vou nadar.
Depois de tanto mimimi, confesso: ainda me sinto fragilizada pela notícia, sendenta pelas cervejas e chocolates não ingeridos e duvidosa sobre o quão disciplinada eu conseguirei ser. Mas isso é assunto para outros posts.
2.9.12
Quarenta, enfim!
Acabo de fazer 40 anos no último 29 de agosto.
Foi meu aniversário mais feliz de muitos!
Mais pelo alívio de finalmente acabar com a expectativa da chegada da nova década, que por um outro motivo qualquer.
Muitos beijos, abraços e desejos de felicidades por pessoas queridas que moram no meu coração há tempos. Outras, chegaram agora, e já ocupam um espacinho considerável!
Muita gente me fala que continuo com a mesma carinha de sempre, que não envelheço, tals.
Fico intrigada porque, apesar de pequena, sinto o envelhecimento em cada parte do corpo, da alma e da mente. Claro, me incomoda, mas não lamento.
E sinceramente, não acho nada ruim envelhecer: finalmente tenho cabelos brancos, finalmente, tenho menos energia física, o cansaço natural me faz dormir melhor, por menos horas. São muitas as alegrias do começo da velhice, garanto!
Mas, claro, tudo isso é graças a minha cabeça boa - terapeutizada, meditada, estudada, enfim - minha cabeça nunca pensou na velhice como algo terrível ou avassalador. Aliás, estive sempre um tanto ansiosa para ter no corpo a idade que tenho na mente. E ao que parece, 40 anos é essa medida exata!
Fiz quase tudo que quis.
Amei muito mais do que pensei.
Arrependimentos, muitos - e só me faz mais serena do quanto sou mesmo um ser humano normal.
Sonhos, diversos e muito melhores dos que tive aos 20, 30.
Defeitos, horríveis, incorrigíveis. Estes últimos, por fim, decidi parar de mudar. Tenho coisas péssimas sobre mim. Ponto final.
Talvez uma coisa que eu possa dizer com certeza, além da boa genética, que me mantém nova, viva é que eu nunca, jamais, me imaginei ser outra pessoa que não eu mesma.
Eu não me lembro de nunca querer ter sido um outro alguém, de estar na pele de uma outra pessoa, que eu julgasse melhor. Claro, me inspirei em inúmeras pessoas. Mas nunca quis trocar de lugar com ninguém.
No pior da minha vida, nunca pensei em desistir de ser quem sou. Acho que é isso que chamam de amor próprio. Essa honra de vestir minha pele e não abrir mão de jeito nenhum do ser humano que sou.
Porque só eu sei, lá no fundo, como é bom ser eu! Desse jeitinho mesmo. Mais uns quarenta anos, se tudo der certo!
Foi meu aniversário mais feliz de muitos!
Mais pelo alívio de finalmente acabar com a expectativa da chegada da nova década, que por um outro motivo qualquer.
Muitos beijos, abraços e desejos de felicidades por pessoas queridas que moram no meu coração há tempos. Outras, chegaram agora, e já ocupam um espacinho considerável!
Muita gente me fala que continuo com a mesma carinha de sempre, que não envelheço, tals.
Fico intrigada porque, apesar de pequena, sinto o envelhecimento em cada parte do corpo, da alma e da mente. Claro, me incomoda, mas não lamento.
E sinceramente, não acho nada ruim envelhecer: finalmente tenho cabelos brancos, finalmente, tenho menos energia física, o cansaço natural me faz dormir melhor, por menos horas. São muitas as alegrias do começo da velhice, garanto!
Mas, claro, tudo isso é graças a minha cabeça boa - terapeutizada, meditada, estudada, enfim - minha cabeça nunca pensou na velhice como algo terrível ou avassalador. Aliás, estive sempre um tanto ansiosa para ter no corpo a idade que tenho na mente. E ao que parece, 40 anos é essa medida exata!
Fiz quase tudo que quis.
Amei muito mais do que pensei.
Arrependimentos, muitos - e só me faz mais serena do quanto sou mesmo um ser humano normal.
Sonhos, diversos e muito melhores dos que tive aos 20, 30.
Defeitos, horríveis, incorrigíveis. Estes últimos, por fim, decidi parar de mudar. Tenho coisas péssimas sobre mim. Ponto final.
Talvez uma coisa que eu possa dizer com certeza, além da boa genética, que me mantém nova, viva é que eu nunca, jamais, me imaginei ser outra pessoa que não eu mesma.
Eu não me lembro de nunca querer ter sido um outro alguém, de estar na pele de uma outra pessoa, que eu julgasse melhor. Claro, me inspirei em inúmeras pessoas. Mas nunca quis trocar de lugar com ninguém.
No pior da minha vida, nunca pensei em desistir de ser quem sou. Acho que é isso que chamam de amor próprio. Essa honra de vestir minha pele e não abrir mão de jeito nenhum do ser humano que sou.
Porque só eu sei, lá no fundo, como é bom ser eu! Desse jeitinho mesmo. Mais uns quarenta anos, se tudo der certo!
5.3.12
Ponte
Todo mundo já cruzou uma ponte na vida: a pé, de carro. No parquinho de areia.
Uma das minhas favoritas está no Parque da Chapada dos Veadeiros.
É feita de ripas de madeira e corda. Uma ponte daquelas moles, presas firmemente de um lado e do outro no solo. E só.
Olho o outro lado, que nem é tão distante assim, seguro firme nas cordas que servem de corrimão: ao dar meu primeiro passo, a ponte toda treme!
De susto, dou um passo pra trás.
Agora, a ponte está como uma minhoca.
Medo.
Nova tentativa.
Com dois passos à frente, o peso do meu corpo todo sobre as ripas criam um estranho equilíbrio, fica quase fácil dar o terceiro passo...
O ritmo das passadas faz ondas na superfície da ponte que agora balança pra valer!
Aperto as mãos nas cordas, mas eis que quanto mais me apego ao suporte, mais difícil fica de caminhar pra frente!
No limite de cair, percebo então que sou eu quem imponho o ritmo daquela ponte a balançar!
As ripas, as cordas, tudo obedece ao meu caminhar.
Para cada passo, uma onda até o lado oposto.
E fim.
Eu sou a dona dos meus passos.
E, se não escolho todos os caminhos por onde passarei, farei deles meus próprios:
com equilíbrio único, no meu ritmo, uma onda de cada vez.
Com muito amor para todos que atravessam comigo as inúmeras pontes da minha vida. Vocês sabem quem são.
10.2.12
Surpresa!
O mal da pessoa ansiosa é que antecipa - com certo sucesso - muitos cenários que a vida poderia proporcionar. Precavida, esse tipo de pessoa é raramente pega de surpresa. E até quando algo fora dos cenários acontece, rapidamente dá um jeito de enquadrar em novíssimo cenário já pré-criado: deixando o coração bater igualzinho, igualzinho, todo santo dia da vida. É. Bem chato.
Fica pior ainda quando essa figura finalmente entende o que faz com tanto pensamento e racionalização - além do tédio da vida, é obrigada a conviver com as mesmices mentais!
E agora? Lobotomia? Drogas? Anarquismo?
Eu simplesmente não sei que horas, mas desisti de viver desse jeito.
Ou melhor, foi esse jeito que desistiu de mim.
Não vou mentir, até vislumbro, dois ou três cenários para cada um segundo do que me acontece na vida. Mas, coisas da vida simplesmente deixaram os cenários no chinelo!
Me vi, de repente, escolhendo entre dormir ou vislumbrar meu antigo jeito de antecipar tudo! Ha, ha, troco uma boa noite de sono por pouquíssima coisa hoje dia... Resultado?
O mágico aconteceu:
Me surpreendi!
Uma, duas, diversas vezes seguidas!
Um evento que eu SABIA que não seria nada demais, se torna a noite mais engraçada do ano. Uma pessoa que achei que nunca mais sairia da minha vida, desaparece, vira poeira cósmica.
E a noite de Natal.
E o trabalho que surgiu.
E a festa de Ano Novo...
pessoas, projetos, eventos: não há um dia sequer que eu tenha certeza absoluta do que vai acontecer!
É. Os cenários ansiosos fugiram de mim. Incrível!
Esse é o meu ano, sim. E eu não tenho a menor ideia de como ele será!
31.12.11
2012 desarmado sorrindo
Certa feita, recebi um conselho que sigo sempre que me lembro:
um desconhecido ao saber da minha mudança para Nova York me disse:
"Smile. No matter how new yorkers treat you, give them back a good old smile".
Funcionou. Para todos os mal entendidos, grosserias e chatices da Grande Maçã, aplicava o golpe do velho e bom sorriso.
É que o sorriso desarma. Desmonta a armadura de medos e preconceitos.
Sorrir para alguém em silêncio é como um espelho de almas: da sua e do outro.
Não sou diferente: estou calejada, doída da vida.
Mas, ah! Quando alguém sorri para mim - como manter a guarda alta?
Acho que o sorriso assim, grátis, sem muito porquê, ficou raro porque estamos todos armados até os dentes: literalmente, esperando o próximo ataque que vai nos levar ao chão.
Um coração partido, uma resposta atravessada, não interessa o tamanho da dor - estamos todos cansados de doer!
Devemos, portanto, tirar proveito dessa canseira toda:
Vamos abaixar a guarda.
Descansar os braços, abrir o peito num grande suspiro: sorrir!
Não é igual a esquecer a dor.
Não, não é igual ser bonzinho.
Não é fazer de conta que
O sorriso que desarma é aquele que sabemos que é letal: mata o azedume, o rabugento, o implicante. Ele supera, domina, encanta num passe de mágica!
Você sabe muito bem de qual sorriso eu estou falando...
É o sorriso de sol no picolé supergelado!
É a nuvem que resfresca o ardido do meio dia no sol!
É o telefone tocar com aquela pessoa na linha!
Isso, é esse o sorriso.
Façamos de 2012 o ano desarmado por sorrisos.
Vai ser lindo.
(um sorriso em silêncio pra você!)
29.12.11
Contrário
Ao contrário do que todo mundo me conta, a minha vida nunca mudou da noite para o dia.
Foi sempre, para o bem e para o mal, um processo lento e contínuo.
De erros e acertos.
De tentativas e arrependimentos. (Sim, vários. E daí?)
Não tenho uma história "da noite para o dia"...
Não tenho uma decisão "de uma hora pra outra"...
O ano que passou não foi diferente:
Vieram coisas boas, ruins, medíocres.
Chegaram pessoas incríveis. (Muitas delas não ficaram.)
Como todo ano, aprendi muito. E errei bastante também.
2011 foi a prova cabal de que eu sou lenta.
Para aprender, para assimilar, para decidir.
Sou lenta nos meus processos, e por isso, as coisas, naturalmente, andam mais devagar.
Mas, o que eu entendi FINALMENTE é que não há NADA DE ERRADO em ser lenta:
Esse foi meu ano de esperar, e nada acontecer.
De correr atrás, e não chegar a lugar algum.
De guardar meu coração com medo dele ser espatifado no chão.
Foi um ano que NADA aconteceu.
E TUDO foi vivido lentamente,
aqui dentro, nas entranhas do meu estômago, fígado, pulmão.
A única diferença de 2011, sou eu:
Eu não estou mais com pressa
Nem agoniada
Nem ansiosa
Sobre o que, o como ou o porque as coisas acontecerão na minha vida
Me ensinou, esse ano passado, o quanto eu preciso estar onde estou
e só
E já é muito!
Porque andar devagar, no meu ritmo, do meu jeito
É o jeito mais veloz de eu chegar onde quero ir!
17.12.11
tá bom, tá bom!
tá noite
tá molhado
táqui
tá quieto
tá frio
tá sujo ali
tá longe
tá surdo
tá sério o pensar
tá certo
tá pronto
tá feito o meu jeito de amar
25.11.11
na galeria e
na beleza está o susto.
na surpresa de
compreender o que não tem explicação - e por que as pessoas simplesmente não calam a boca? - não sabem, não querem, não têm porquê.
entre o mato e o silêncio sempre haverá o ruído da alma
que dói, que busca
qualquer semelhança de expressão com a própria essência.
com o que é feito do que se (já) tem.
Impressão
tem um vermelho que espirra da alma
respinga no coração
sai faísca de flor no lago
ressoa
no som
do bicho
tem um verde de veia
que escorre pelas avencas
salta alto nas palmeiras!
foi tudo assim
de som, de cor
sorriso só
feliz enfim
22.11.11
Desafio
aula de redação depois de uma péssima noite de sono.
como sempre, a diversidade da turma é um evento em separado.
e eis que chega um jovem atrasado:
moreno, quinze, vinte quilos acima do peso, cabelo bem anelado cortado rente. cara limpa. olhar sério.
na camiseta vermelha, lê-se
EU VENCI O DESAFIO
quase caí da cadeira para conseguir acompanhar o rapaz andar, sentar, e ajustar o tamanho do corpo na mini-cadeira. mas li!
nas costas da camiseta, devendava-se o desafio
LI A BÍBLIA EM DOIS DIAS
dei uma gargalhada alta.
o professor me olhou ao mesmo tempo que os outros 47 pares de olhos da sala.
o sono passou.
obs:. eu não sei que merde que tá rolando mas esse blog não tem guardado os comentários que vocês me deixam...
o povo do blogger da google disse que está "fixing the issue" - isso desde junho!
mesmo assim: comentem! cliquem nos links! façam tudo o possível!
e obrigada pela audiência. boa noite. (sobe créditos)
9.11.11
Não cabe adjetivos na vida real
Noite, chuva, janela, Neruda, sofá. Computador, mensagem, pergunta, resposta, pergunta, resposta, pergunta, resposta. Sim. Banho, roupa, perfume, batom. Telefone, escadas, asfalto. Sorriso, conversa, sopa, sorriso, bebida, sorriso. Telefone. Silêncio. Conversa, sorriso, cartão. Sorriso. Conversa. Beijo. Escadas, sala, música, roupas. Beijos. Beijos. Beijos. Telefone. Beijos. Sorrisos. Beijos. Sono. Abraço. Roupa, abraço, beijo. Porta, escada, rua. Cama, lençol, cheiro. Manhã, chuva, asfalto, silêncio. Tarde, chuva, silêncio. Noite, silêncio. Silêncio. Chuva, janela, Neruda, sofá. Sorriso. Chuva. Noite.
para z.
6.11.11
Uma razão maior
Foi num desses dias que acordei azeda.
Saí da cama ainda com sono, o xampu não deu pra lavagem do cabelo, a calça não fechou direito na barriga. Essas coisas que chateiam.
E o pior: a faxineira usou o restinho do pó do café!
Parei na padaria pra tomar um expresso e seguir a vida.
O dia estava azul turquesa e verde esmeralda. Aqueles típicos depois da chuva.
- Bom dia! A senhora vai querer o quê?
- Oi. Um expresso, por favor.
- Um expresso saindo.
Sorri amarelo. Ninguém tem culpa do meu azedume. Mas eu também não tenho que ficar feliz porque o atendente é atencioso. Ou tenho?
- Prontinho! Um expresso! - me entregou com uma das mãos e olhou nos meus olhos. Os dele, sorriam:
- A senhora acredita que há coisas por um motivo maior? Uma razão maior que a nossa?
Segurei o pires com o café quente e olhei de volta nos olhos do senhor atrás do balcão. Um raio caiu na minha cabeça. Sem pensar, respondi:
- Sim.
E ele:
- Eu também! - virou de costas e tocou a fazer cafés, sucos, vitaminas.
Tomei aquele expresso como quem toma uma poção mágica. Fechei os olhos. Senti o cheiro forte, o amargo quente.
Sim, eu tenho certeza de que a maioria das coisas são por um motivo maior. Ou pelo menos, por razões que não as minhas.
Lá fora, o dia ainda magnífico, por exemplo.
25.6.11
Nuvem
Eu era menina na escola e tinha algodão doce
Rosa, azul, branco
No céu seco tinha nuvem
fininha, cinza, branca
No recreio, deitava a cabeça na pedra do pátio
e fazia bichos e coisas da nuvem
Na boca, o gosto doce do açúcar
dos céus
Eu era pequena e vestia uniforme
o vento era brando
o sol, ardido
no canto do céu era nuvem-bicho
e aqui na língua era doce-algodão
(para r.)
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