12.3.13

De 75 a 100%

Em mais um mergulho na piscina, ganho novo fôlego com esse insight.
Com as minhas idas à natação, religiosamente, sem ironia, nadar virou um tipo de meditação. O processo é semelhante àquele de sentar em silêncio e contemplar o agora: eu nado os primeiros 15 minutos com a cabeça cheia de pessoas, coisas, eventos. Acho que depois de um tanto, o cansaço físico toma conta da mente. E finalmente, quase no final, nada disso importa e o movimento, a água, a respiração, tudo entra num único fluxo.

E ali mesmo, nadando e engolindo água, inventei a teoria dos 75%.

Nunca fui péssima aluna. Mas nunca fiz questão de ser a melhor. Então, sempre fui a aluna 75%. 
Como bailarina, também estava sempre um pouco acima da média - mas longe de ser a primeira bailarina.
Nas aulas - tediosas - de piano, eu desisti: acho que na música, eu mal cheguei ao meu desempenho 75%...
No curso de inglês - que eu amava a cada ano mais - raramente passava dos 80% nas notas. É que eu sabia que dava pra passar, tava bom demais.
E nos concursos públicos, estar na média 75% me garantiu meu emprego atual. Mas, pelos meus cálculos, o emprego dos meus sonhos está, no mínimo, no patamar do desempenho 85%.

E ontem, tive essa súbita iluminação: sabendo da teoria dos 75%, se eu alcançar esse fluxo meditativo antes, ficará mais fácil chegar a um desempenho mais alto!

Fiz o teste: quando antes o professor me dava 400 metros de missão, eu nadava 300 no máximo. Aí, batia uma preguiça, um cansaço. Faltava só um tiquinho, mas eu deixava esse tiquinho pra lá. Ontem, decidi que era esse tiquinho que me daria o fluxo contínuo. 300 metros são o aquecimento. São os 100 metros restantes que dão exatemente o que preciso. Só que pra chegar lá, preciso inevitalmente fazer os 300 iniciais.

Descobri que racionalizando os 75% de cada tarefa dada, eu não preciso de estímulo para fazer tudo. Eu só preciso dessa força extra faltando 25% da tarefa!

Foi um truque infantil, mas funcionou lindamente. Ao contrário do que fiz a vida toda - de querer acabar logo todo projeto que me proponho - comecei ontem o caminho inverso: para toda missão aquática, pensei que eram os últimos minutos da natação que contavam para o que realmente preciso: chegar ao fluxo.

Assim foi feito: nadei 45 minutos redondos. Poucas paradas, sem roubar nenhum metrinho, mas também sem justificar que - ah, já tá bom esse tanto que nadei - não.
O bom é sentir o fluxo. E o fluxo só chega no final. Pelo menos até agora, é no final. Me aguardem.

7.3.13

Avalanches programadas

Ouvi dizer que há um tipo de técnica na engenharia que se usa disso: na iminência de uma possível avalanche ou desabamento em certo local, uma equipe antecipa o evento. Calculam, projetam e finalmente, provocam uma avalanche que aconteceria acidentalmente. Isto evita o transtorno como elemento surpresa e possibilita um certo controle num fenômeno natural.

Tem horas que acho que já já cai uma avalanche na minha cabeça.
Em outros momentos, sinto o coração prestes a explodir, antecipando um desabamento incontrolável de emoções.
Até aqui, tudo sob controle. Sinceramente, neste exato momento, duvido muito que algum acidente acabe com a minha lucidez e presença de espírito.

Mas, admito que a imagem de antecipar uma avalanche é bem tentadora. Provocar o transbordamento de um rio de sentimentos tem um lado positivo: a sensação de um mínimo de controle, já que transbordou no momento que escolhi e posso me previnir de eventuais danos colaterais.
Vou escolher ouvir todas as músicas, ler todas as cartas, ver dois ou três filmes e passar horas aos prantos, num misto de tristeza, raiva, e também resignação e alívio - afinal, escolher viver tudo isso na hora certa demonstra uma maturidade que eu não tinha experimentado até aqui - essa coisa adulta de se saber sofrendo, sofrer, e ainda assim, estar no presente.
Sem subterfúgios, sem depressão e sem euforia. Só a dor. E ponto.

Estar no olho do furacão, ou a da avalanche, para seguir com a metáfora. Estar, mas não SER.
O que me resta é contemplar o que sinto e penso confiando sempre que os estragos causados serão menores do que os ganhos.
E de que uma hora, tudo vira outra coisa. Porque tudo acaba. E tudo começa.
Avalanche que vira estrada. Estrada que vira caminho. Caminho que vira luz.

para Irma.

28.2.13

De cabeça pra baixo e dentro d´água

Aula 4 de natação. Nadei mil metros em intervalos diversos no período de 45 minutos.
Fui e voltei feliz da tarefa. A água tem sim algo mágico e meu corpo agradece lembrar-se de onde veio e pra quê existe: para vir à tona, para trazer vida, para se ver vivo.

Em inúmeros insights oxigenados e azuis, percebi que sempre sempre sempre consigo mais do que eu acho que posso.
Vide minha vida atual.
Vide meu desempenho aquático. Mil metros! Se me contassem isso semana passada, daria risos altos.
Agora, também! Só que de surpresa por me sentir capaz, e por à prova a dúvida que me ronda desde sempre: o que me proponho, nunca consigo chegar até o fim.
De novo, vide minha vida atual.
E de novo, vide minha aula de natação!

Depois do banho, debaixo das cobertas e de olhos fechados, sonhei muito:
Uma vida vindo à tona, um corpo vivo, a mente em silêncio.

Acordei com o sonho ainda claro, azul-piscina, músculos sentindo a possível virada:

Tem algo mágico na água, no ar, dentro de mim.
Vide minha vida.
Vide e vive!

Instead of resisting to changes, surrender. Let life be with you, not against you. If you think “My life will be upside down” don’t worry. How do you know down is not better than upside? (Rumi)
 

27.2.13

Rio Bravo ou Onde começa o inferno

Não há melhor escapismo que uma sala de cinema.
Num dia nublado em Brasília, entre inúmeros títulos, fiz a escolha perfeita: a Mostra Tarantino no CCBB exibia Onde começa o inferno. Li a programação rapidamente, não tinha a menor ideia do que se tratava o filme.

As luzes se apagam e a primeira cena é um plano aberto, uma fila de caubóis descendo um despenhadeiro, uma música no estilo mexicano. Sorri no escuro.
Rio Bravo é um dos meus favoritos dentro dos favoritos! E nunca soube o título em português, já que vi este faroeste em 1988, na sala de estar da minha então casa, em Ohio, Estados Unidos.

Meu intercâmbio para aquele país foi no meio do segundo grau e dei sorte: depois de ser recusada por uma primeira família, um casal sem filhos, dois cães e um gato, me acolheram e me mostraram o melhor do centro-oeste americano: em especial, a predileção pelos filmes do velho oeste. Na época, eles tinham tantos filmes quantos livros enfileirados na estante - fitas VHS que ocupavam duas paredes. Quase todos americanos. Quase todos Westerns. Em um ano, é possível que eu tenha assistido a praticamente toda aquela videoteca.

De volta à sala de cinema ontem à noite, me dei conta do quanto cada pedacinho da minha vida me fez a pessoa que sou: meu amor pelos filmes, sem saber, foi profundamente influenciado por um ano triste, infeliz, solitário, no interior de Ohio.

Sou feita de remendos, cada um alinhavado de um jeito difícil de ver pelo lado certo da costura. Do avesso, cada fio vai a lugares inimagináveis. O cinema e Ohio, na minha vida, só se conectaram ontem, no escuro de uma noite de verão chuvosa.



26.2.13

Francês

Mais uma reviravolta e aqui estou eu.
Ainda limpando as palmas das mãos, acordei com uma bola na boca do estômago e um desejo intenso.

Um não, muitos. Vamos por partes, como diz Jack, o Estripador.

Guardei no meu inbox por meses a fio, o link para um curso de francês grátis.
Meses que não foram usados para mais nada, muito menos para começar o curso de francês.
Eis que hoje, fiz minha matrícula e minha primeira lição!
Ouvidos enferrujados e um tanto distraída - defeito que aliás, vem aumentando na minha personalidade tão detalhista e disciplinada - não terminei a lição por falta de um plug in (maldita teconologia!) mas já animei bem muito.

Nas intruções para o curso, há inúmeros links úteis e um deles é o Mixxer uma página que você se cadastra e faz amigos para conversar na língua desejada. Achei a ideia genial, me cadastrei.

Aprendi francês na escola primária, por uns quatro anos. Me lembro até hoje da primeira lição. Ouço francês com as orelhas derretendo de amor, adoro a cinematografia e conheci Paris. Mas, foi definitivamente o livro de Flaubert que me tomou de paixão: Madame Bovary me causou um impacto tão grande, que não terminei de ler.
A tradução indicada por um professor de literatura parece excelente, mas achei uma puta injustiça ler tudo aquilo em português. Fechei o livro e jurei para mim que esta é aquela obra merecedora da minha saída da ignorância.

Vou aprender francês para ler Madame Bovary no original! E ponto.







17.2.13

Quero mais, saúde!

Prezados, o sumiço, para variar, se dá muito pela preguiça e menos pela falta de ideias.
Hoje escrevo pra sair da inércia e contar pra geral a novidade do ano de 2013.
Sim, amigos, ainda estamos no mês dois, mas minha vida já teve algumas revoluções.

E a que eu vou dividir com vocês hoje é: estou diabética.
É isso. Super foda, mas é isso aí.
Depois de ouvir da médica que não dava mais para adiar o uso de medicamentos, fui para casa chorando e pensando na merda que minha vida será.

Minha diabetes é do tipo 1, que é aquela adquirida e que não pede o uso da insulina (ufa, sem injeções diárias!). O que pega mesmo no meu caso é o quanto de insulina que o meu pâncreas produz: o açúcar entra no meu sangue, eu produzo a insulina necessária; meu corpo não entende que eu já fiz essa primeira produção e manda o coitado do pâncreas começar tudo de novo. Daí que eu produzo insulina demais, e não de menos. Atualmente, estou produzindo o dobro da quantidade de insulina necessária.

Passei os últimos 3 anos monitorando a situação e jurando pra médica e pra mim mesma que faria atividade física diariamente - e dançar a noite toda uma vez por semana não contou; sexo também não foi com a frequência necessária para pontuar nesse quesito - e também prometi cuidar da alimentação: o que eu cumpri direitinho, salvo os porres homéricos, ai.

Estou há três semanas tomando 500 mg de Glifage diaraimente, um composto de metformina. De acordo com a bula, é bom pra controlar essa média insulina/glicose. Os dez primeiros dias foram infernais: dores de cabeça ininterruptas, diarréia e enjoo. O milagre aconteceu depois: com uma dieta mais equilibrada - não virei um robozinho, mas juro que estou empenhada - o remédio e os chás estão fazendo maravilhas: estou mais disposta, menos sonolenta e quase sem preguiça (mentira!)

Agora que tudo está quase sob controle, resta minha disciplina, vontade e determinação (rooonc!)
Procuro uma atividade física que me faça feliz, me dê a motivação de persistir diariamente e não pese no meu bolso. Até o final de fevereiro, bato o martelo entre a hidroginástica (roooonnnc!) a natação (ai, canseira de tanta infra) e a dança (por que eu só gosto de coisa de rica?) - estou em fase experimental. Amanhã, vou nadar.

Depois de tanto mimimi, confesso: ainda me sinto fragilizada pela notícia, sendenta pelas cervejas e chocolates não ingeridos e duvidosa sobre o quão disciplinada eu conseguirei ser. Mas isso é assunto para outros posts.











11.12.12

2013

Não, eu não quero nada novo.
Não, não quero mudar quem eu sou.

Para o ano que chega, quero mais do mesmo:
o mesmo afeto pelos meus queridos
o mesmo sol pintando a casa de claros e escuros
o mesmo vento seco em agosto
o mesmo vento úmido em dezembro

Não, eu não quero novas e mais aventuras
Eu quero mais das mesmas coisas incríveis
viagens, livros, filmes,
amigos, sobrinhos, amor,
os mesmos,
iguais
com os mesmos perfumes, roupas, adereços

Em 2013, eu não deveria querer nada,
nem de novo, nem de velho
mas, quero.

só que quero o que já tenho
e de um jeito torto
é exatamente o que preciso

sim, pode ser que eu precise menos
de mais coisas (e pessoas)

ou que eu precise mais
de mais coisas iguais

mas, sem dúvida
eu não preciso de nada, nada mesmo
que eu não saiba desde já
todas elas quais são

e posso dizer, assim, de cara
não, eu não preciso de nada, novo, não.



4.11.12

Favorita

Na minha casa tem muitos cantos
E todos são especialmente meus

Mas a janela da "outra" sala
Sempre sempre se supera!

É que ela é uma moldura
Que contorna e embeleza
A rua
A árvore
A Lua
E também minhas ideias

E por ela eu olho o mundo
Lá no fundo
O meu eu-nada

Na janela
tem a chuva
que entra na casa
tem o vento
que espalha marcas
tem o vazio
que cada estrela
pinta
por cima do céu
por cima do carro
na janela

A janela da minha casa
é a porta do meu coração
divide a vida
de dentro
de fora
de perto
de longe
real
ilusório
nuvem
e chão









3.11.12

A semente

Assim do nada, vem uma pergunta:
- Por que você não casa logo, tia Bijú?

Sim, se você tem um sobrinho de 5 anos, esteja sempre pronta para as perguntas mais surpreendentes.

- Eu vou me casar, Enzo. Mas pra casar, não dá pra ter pressa.
- Mas por que você fica demorando?
- É que o casamento Bijuzinho é igual à sementinha que você plantou no algodão.
- Aquela que eu coloquei num copinho?
- É. Você, colocou a sementinha no algodão, jogou água, colocou na janela perto do sol.
- É. E aí, nasceu uma folhinha!
- Nasceu, né? Mas não nasceu no mesmo dia! Você lembra que todo dia ia lá, olhava a sementinha...
- E não acontecia nada!
- É que a semente primeiro tem que ficar bem forte, com muita muita vontade de nascer, beber bastante água, tomar muito sol...
- E só depois que ela vai nascer?
- Isso, só depois...mas um dia, Bijúzinho, a semente nasce e aparece uma folhinha linda, verde e forte!
- Meu feijãozinho nasceu com duas folhinhas, tia Bijú!
- Que lindo, Enzo! É assim o casamento: como a sementinha no algodão, a gente planta o amor, rega, põe na luz e fica torcendo pra sair uma folhinha que se chama casamento!
- E demora, tia Bijú?
- Demora, Enzito, mas é bom que demore...porque nasce forte e lindo lindo!
(Claro, não confessei. Mas há amores que mal precisam ser plantados: diferente do casamento, o fruto do amor de tia, mal cai na terra, e a semente já vem brotando forte, plena, invencível)

19.10.12

Os homens precisam de outros homens

Lamento dizer, mas o que os homens precisam é de um outro homem.
Aquele amigo de verdade, sabe?
Eles podem jogar bola juntos, ou videogame. Ou assistir ao futebol tomando cerveja, tudo bem.
Mas os homens andam seriamente precisando ir além - precisam ser amigos uns dos outros.

A amizade masculina, tão diferente daquela entre duas mulheres, é sempre superficial, repleta de atividades. E quase invejo isso, não fosse o que me parece uma certa omissão. Os amigos homens dos homens se isentam de opinar, ouvir e, muitas vezes, dar aquele puxão de orelha, tão tão importante nas relações de amizade de verdade. Porque amigo mesmo, é aquela pessoa que te ama tanto que não consegue te ver entrando numa fria e ficar em silêncio.

Sinto que as mulheres só não se perderam mais nessas tantas revoluções do fim do século 21 porque conseguiram de alguma forma criar redes de gênero - mulheres que ajudam, escutam, brigam, amam outras mulheres.
Os homens ainda engatinham: perdidos nos variados papéis que ambos os gêneros precisam reinventar, parecem esquecer do principal: estão todos passando por situações muito semelhantes. E dividir, é como somar nesses casos.

Penso sempre nas comédicas românticas americanas, que usam estereótipos de gênero muito bem: o mocinho está atrás da mocinha; pisa na bola; a mocinha vai embora; entra em cena, o melhor amigo do mocinho - que o convence de correr atrás da mocinha, de não desistir, de fugir do orgulho e ir em frente; o mocinho ouve com atenção, se enche de coragem, reencontra a mocinha; a mocinha reconhece o esforço e dá a ele uma outra chance.

No mundo real, onde estãos os melhores amigos do personagem principal?