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11.1.17

Ansiedade, a vilã secreta

A conversão ao budismo foi uma decisão causada por um episódio intenso de ansiedade.
Havia sofrido um rompimento com um namorado de um ano. Ele era tudo pra mim, com quem eu queria me casar e ter filhos. Um belo dia, depois de um jantar, sem nenhuma palavra, ele me entregou a cópia das chaves que ele tinha da minha casa, e nunca mais falou comigo. Nunca mais. Não atendia meus telefonemas, ou quando muito, era monossilábico.
Após seis meses de insistência, decidi que era o suficiente: a rejeição dele tinha que ser um sinal claro para mim de que ele não queria mais ser meu namorado.
A conclusão e o rompimento eu tive que inventar já que ele nunca me comunicou o porquê da decisão dele.
A tristeza desse processo fermentou minha ansiedade: o que já era latente teve a oportunidade de aparecer com toda força, me dominar, controlar minha vida, meus pensamentos, minhas emoções.
Nesse período de limbo, enquanto eu tentava alternar táticas para 'resolver' a relação, entre ligações insistentes e silêncios por dias a fio, construí uma ansiedade que virou uma muleta para a caminhada que eu via pela frente: para mim, era uma questão de tempo para retomar o namoro. E com isso em mente, todos os meus pensamentos e ações eram voltados para esse fim. E a cada atitude mal sucedida, e que não me levava para esse resultado, mais ansiosa eu ficava.
A ansiedade que eu vivia me impedia de dormir bem, e por isso, eu estava em um constante estado de mal humor. Esse mal humor, a irritação e a agitação trocavam de lugar com um desânimo, uma preguiça de tudo e de todos.
Até claro, a gota d´água - algum dia, por algum motivo, depois de muitos comentários das amigas, dos familiares, algo em mim decidiu que esse método não estava funcionando e que então, eu deveria experimentar algo novo.
E fui meditar a convite de uma amiga.
Entendi com um insight incrível que aquilo que eu perseguia, o retorno da relação, nunca ia acontecer, e que por isso, não havia motivo para estar constantemente ansiosa. Senti um misto de alívio e decepção. Mas a prática me tirava da tristeza, me lembrava da desimportância da ansiedade e o principal - que eu não tenho praticamente nenhum controle sobre a minha vida, sobre a vida dos outros.
Nove anos passados, me encontro em uma situação semelhante emocionalmente: a ansiedade segue como vilã disfarçada de boa moça e me pega de surpresa por vezes dias a fio. Consigo identificar uma agitação no pensamento e nas ações, às vezes em minutos, às vezes demoro quase uma semana! Em geral, associo a situações não resolvidas, ou mal resolvidas, nas quais eu não tenho controle do resultado e antecipo uma resolução negativa. Também consigo observar a ansiedade ampliada nos períodos do meu ciclo menstrual em que as oscilações hormonais são mais gritantes.
Daí, respiro, medito, corto a cafeína, e deliberadamente vou fazer algo que me faça BEM - escrever aqui, por exemplo.
Essa mudança comportamental me traz uma perspectiva para olhar para a situação de uma maneira menos obsessiva, e reforça esse meu entendimento de que a ansiedade não me serve para nada, porque eu não controlo nada, logo, o melhor a fazer é seguir vivendo. Neste exato momento, tudo isso acaba de funcionar!

17.9.16

Tudo ao mesmo tempo agora

Abro essa página para escrever sobre um sem número de coisas desordenadas. Tenho sentido essa dificuldade imensa de organizar a ideias no papel há tempos já. Talvez por isso parei de escrever aqui, e aí, num ciclo vicioso, a falta do escrever me desorganizou ainda mais. Outro ponto, eu não faço uma boa leitura há um bom tempo também. Sempre fragmentada em capítulos, textos soltos, dois parágrafos no máximo. Vida líquida - minha capacidade de silenciar minha rotina e me dedicar a duas coisas que gosto muito: ler e escrever.
Agora nas férias, me propus a ler textos acadêmicos, e também trouxe na mala o Amor Líquido, do Bauman. É aquela história - leitura difícil não deveria ser companhia pras férias; mas se não for nas férias, que horas vou ler um livro tão difícil?
Eu li, e doeu. Muitas tristes verdades confirmadas e revistas. Nunca ficou tão claro para mim o quanto me sinto deslocada, despertencida, ignorada no mundo.
Viajar sozinha é sempre uma exceção, mas Fortaleza foi gritante - vai ganhar o título de Tradição Família e Propriedade da capital mineira porque af, que triste: o machismo, a homofobia, o chovinismo, o patriarcalismo.
Se viajar sozinha já é um ponto fora da curva, ser mulher, solteira e quarentona, éter e classe média então. Em cada cenário, reafirmo minha abdução de outro planeta para a Terra. Quero o impossível na vida a dois, no trabalho, nos espaços comuns: as cidades. E recebo de volta comentários machistas de homens com alianças procurando as putas da praia; um golpe de Estado que hierarquiza relações que mal existem profissionalmente; me calo diante de afirmações da classe alta do quanto é importante o filho sair com um segurança particular dirigindo um carro importado blindado.
É, eu sou toda errada.
Não tenho mais convicções para compartilhar porque essa palavra foi abolida dos vocabulários dos grupos de whats up - inclusive o grupo da família, que era antes uma chuva de bons dias e boas noites, agora é só insulto e provocações políticas que ninguém lê de verdade mas se sente mal.
E nem contemporizar os ânimos eu quero mais. Não mais.
Estamos todos carentes.
E é uma carência sem fim, um poço seco e sem fundo, porque não importa a atenção, ela vem sempre tarde demais, pouca demais, de quem não importa demais.
É hora do meu embarque.
Volto pra casa mais insegura, com mais medo e mais tristezas que quando cheguei. O Brasil é grande, as pessoas estão somente sub-existindo, e vamos mudar de assunto porque o próximo programa de tv vai começar, chegou mensagem no whats up e uma foto pra subir no instagram. Depois a gente vê essa coisa de viver.

16.9.16

Hiato

Em menos de 24 horas estarei de volta em casa depois de 10 dias de sol e mar.
Há mais de dois anos, abandonei o espaço de escrever.
Hiatos na minha vida são muito comuns. Acho saudável sair das fases, mudar de rumos, inventar outras invenções. Escrever, nunca foi substituível para mim. Simplesmente, desisti de achar importante falar do que penso e sinto. 
Aliás, essa sensação de desimportância tem imperado na minha vida: em várias gradações e passando por muitas áreas, as coisa têm tido pouca importância. Um misto de desesperança com preguiça. 
Na praia, vejo crianças surfando claramente sem nenhum compromisso com o profissionalismo ou a prática de uma atividade física - estão ali, no mar, nas ondas, e de lá sairão famintos e cansados fim.
A cena de um mar salpicado de amadores divertidos me comove e peço a Iemenjá que olhe sobre todos nós - desses ingênuos moleques ratos de areia a seres como eu, que sentem tanto e fazem tão pouco. 
É hora de voltar. Resumir hiatos, chegar em casa. Sigo desistindo de dar importância a muitas coisas mas escrever ressurgiu assim, como os meninos surfistas depois de um caldo monumental do mar. Axé Iemanjá!

17.2.13

Quero mais, saúde!

Prezados, o sumiço, para variar, se dá muito pela preguiça e menos pela falta de ideias.
Hoje escrevo pra sair da inércia e contar pra geral a novidade do ano de 2013.
Sim, amigos, ainda estamos no mês dois, mas minha vida já teve algumas revoluções.

E a que eu vou dividir com vocês hoje é: estou diabética.
É isso. Super foda, mas é isso aí.
Depois de ouvir da médica que não dava mais para adiar o uso de medicamentos, fui para casa chorando e pensando na merda que minha vida será.

Minha diabetes é do tipo 1, que é aquela adquirida e que não pede o uso da insulina (ufa, sem injeções diárias!). O que pega mesmo no meu caso é o quanto de insulina que o meu pâncreas produz: o açúcar entra no meu sangue, eu produzo a insulina necessária; meu corpo não entende que eu já fiz essa primeira produção e manda o coitado do pâncreas começar tudo de novo. Daí que eu produzo insulina demais, e não de menos. Atualmente, estou produzindo o dobro da quantidade de insulina necessária.

Passei os últimos 3 anos monitorando a situação e jurando pra médica e pra mim mesma que faria atividade física diariamente - e dançar a noite toda uma vez por semana não contou; sexo também não foi com a frequência necessária para pontuar nesse quesito - e também prometi cuidar da alimentação: o que eu cumpri direitinho, salvo os porres homéricos, ai.

Estou há três semanas tomando 500 mg de Glifage diaraimente, um composto de metformina. De acordo com a bula, é bom pra controlar essa média insulina/glicose. Os dez primeiros dias foram infernais: dores de cabeça ininterruptas, diarréia e enjoo. O milagre aconteceu depois: com uma dieta mais equilibrada - não virei um robozinho, mas juro que estou empenhada - o remédio e os chás estão fazendo maravilhas: estou mais disposta, menos sonolenta e quase sem preguiça (mentira!)

Agora que tudo está quase sob controle, resta minha disciplina, vontade e determinação (rooonc!)
Procuro uma atividade física que me faça feliz, me dê a motivação de persistir diariamente e não pese no meu bolso. Até o final de fevereiro, bato o martelo entre a hidroginástica (roooonnnc!) a natação (ai, canseira de tanta infra) e a dança (por que eu só gosto de coisa de rica?) - estou em fase experimental. Amanhã, vou nadar.

Depois de tanto mimimi, confesso: ainda me sinto fragilizada pela notícia, sendenta pelas cervejas e chocolates não ingeridos e duvidosa sobre o quão disciplinada eu conseguirei ser. Mas isso é assunto para outros posts.











24.3.12

sábado

eu sinto uma estranha falta de ser quem eu já fui com as coisas todas outras que já sou
eu sinto uma saudade burra de quem nunca veio e daqueles que já foram (e eu mal notei)
eu sinto uma alegria débil de simplesmente desobedecer
as regras
a etiqueta
o jeito de ver o mundo que o mundo me força a ter

10.2.12

Surpresa!

O mal da pessoa ansiosa é que antecipa - com certo sucesso - muitos cenários que a vida poderia proporcionar. Precavida, esse tipo de pessoa é raramente pega de surpresa. E até quando algo fora dos cenários acontece, rapidamente dá um jeito de enquadrar em novíssimo cenário já pré-criado: deixando o coração bater igualzinho, igualzinho, todo santo dia da vida. É. Bem chato.
Fica pior ainda quando essa figura finalmente entende o que faz com tanto pensamento e racionalização - além do tédio da vida, é obrigada a conviver com as mesmices mentais!
E agora? Lobotomia? Drogas? Anarquismo?

Eu simplesmente não sei que horas, mas desisti de viver desse jeito.
Ou melhor, foi esse jeito que desistiu de mim.

Não vou mentir, até vislumbro, dois ou três cenários para cada um segundo do que me acontece na vida. Mas, coisas da vida simplesmente deixaram os cenários no chinelo!

Me vi, de repente, escolhendo entre dormir ou vislumbrar meu antigo jeito de antecipar tudo! Ha, ha, troco uma boa noite de sono por pouquíssima coisa hoje dia... Resultado?
O mágico aconteceu:

Me surpreendi!
Uma, duas, diversas vezes seguidas!
Um evento que eu SABIA que não seria nada demais, se torna a noite mais engraçada do ano. Uma pessoa que achei que nunca mais sairia da minha vida, desaparece, vira poeira cósmica.
E a noite de Natal.
E o trabalho que surgiu.
E a festa de Ano Novo...
pessoas, projetos, eventos: não há um dia sequer que eu tenha certeza absoluta do que vai acontecer!

É. Os cenários ansiosos fugiram de mim. Incrível!
Esse é o meu ano, sim. E eu não tenho a menor ideia de como ele será!



25.4.11

madrugada

No Universo
Perplexo
Há rima?
A minha
Em tempos de nada ocorrer
Eu aqui pensando em você

23.4.11

confissão

eu sei eu sei e como deixar de saber?
como virar outra coisa?

eu não sei, simples assim
ser de um outro jeito, eu tento, juro que sim!

eu fujo, eu corro, eu me escondo
eu tenho medo das mesmas coisas
do escuro

eu já deixei de ser
e depois voltei atrás

eu talvez tenha que aprender
ou
sei lá
esquecer de vez?

12.3.11

Ciclone circulares ciclos

Estranhamente, tive uma severa TPM há dois dias.
Mas esse mês, senti uma irritação maior. Melhor: senti muita raiva mesmo. Um burburinho se apossou de mim. Uma agitação interna, uma convulsão inexplicada.
Porque nessa época do mês, sempre administro da melhor forma possível um surto de tristeza e melancolia. Daí, fico quieta, me isolo um pouco, entro pra dentro, por assim dizer...

Esse não, esse me tirou do prumo. Abalou minha estrutura: esperando a tristeza, veio a raiva.
Movimentos diferentes, ruíram minha confiança. Sem saber o que mais fazer, calei para ouvir. E o estrondo foi ruidoso.

Um tsunami chega num terremoto estrondoso e destrói a civilização mais moderna do mundo. De surpresa, superando todas as expectativas, varre o Japão e a confiança de todos nós de que a Terra é um lugar seguro para se estar.

Achei sinceramente que o movimento das ondas do mar chegaram nos mares internos do meu corpo. Senti aqui dentro a fúria incontrolável de estar fora de controle.
E como todo ser humano que habita esse planeta, virei pequena miniatura nas mãos da força natural das marés, das placas tectônicas. Nas mãos do meu próprio ciclo, fluxo vivo que insistimos em regrar, regular, reger.

Adequar o natural ao civilmente aceito: o ciclo da mulher, o ciclo das marés.
Seria este o maior ato humano de vaidade? Controlar?

De patins, percorri 12 quilômetros para só então entender:
a pretensão humana é tal que realmente pensamos que o Planeta foi desenhado para nós!
Que o ciclo da mulher veio para nos servir!

Um sorriso de canto de boca e percebo: sensações passadas, hora de reconstruir, recomeçar.
Para mim, banho, roupa, comida, cama.
Para o Japão, reengenharia, rearranjos, rezas.

Mas, para todos nós -
é (sempre) hora de repensar
o Homem não é máquina (nem a mulher!)
o Planeta não é máquina

Viver o agora é a única lembrança que levaremos desse corpo, desse mundo.
Há de se fazer o melhor de nós nascer a cada instante numa atitude
a favor do próximo
em prol do Planeta
com a certeza de que o seguinte instante melhor será.
E assim será.




16.10.10

Provas

Eu sou a prova de que ser inteligente não necessariamente paga bem
Eu sou a comprovação de que ser legal, carinhosa e leal não significa encontrar um parceiro apaixonado
Eu sou a prova de que o esforço e a dedicação não levam ao resultado sonhado
De que falar a verdade, gastar bem o dinheiro e tratar bem o outro ser humano não traz prêmio nenhum
A prova de que amigos e família que me amam não é alento na cama vazia à noite
Que um teto sob minha cabeça resolve um tanto, e complica um outro tanto bem mais difícil de explicar

Passei grande parte da vida acreditando que as coisas boas que me aconteceram (e me acontecem) são prêmios de boa conduta.
Errei feio: sou a prova cabal de que não há prêmios. Não há castigos.
Os eventos e as pessoas acontecem por motivos alheios à nossa vontade.
São frutos de um somatório de fatos e fins impossíveis de se somar a um único ato.

No final, não tenho qualquer controle do que é minha vida.
Mas é tão difícil aceitar isso, que prefiro fingir que todo controle que exerço sobre meus atos, comportamentos e ações serão necessariamente refletidos nos frutos que eu colherei.
Sim, eles influenciam e muito na tal colheita. Mas não é linear, não proporcional, não é medido nessa régua que eu tenho em mim.

Eu sou a prova de que há ordem no Universo. Mas não é a MINHA ordem. Nem qualquer outra que conheço.
Até aqui, a única aposta que faço com segurança é essa:

Os méritos que tenho são frutos de muito suor meu, mas também de um acúmulo de outras "sortes" que trouxe comigo nessa vida.
E os meus desejos e sonhos são sempre realizados com suor e resignação. Mas muitos, muitos mesmo, foram deixados pelo caminho.

Há provas de que tive sorte, também há as de azar.
Mas não há comprovação nenhuma de que minha felicidade depende só de mim.
Ainda assim, insisto em ser quem sou, em sonhar alto, em desejar o melhor e o bem.
Se não ajudar, pelo menos, não atrapalha.


ps - obrigada à torcida de plantão. cronômetro zerado: nova corrida começa!


3.9.10

Fim

Faltam só oito dias agora.

De arrependimentos, talvez a falta de disciplina para agendar as coisas boas:
meditação, cinema, malhação - o fato é a maior parte do meu tempo livre estive exausta e sem a menor motivação para pensar ou fazer algo por mim mesma.

Nessas horas, também me senti muito sozinha - uma solidão de esperar ser salva por alguém que me esperasse de noite com uma comida quentinha depois das aulas...
Família e amigos tamparam esse buraco tanto quanto eu os permiti - com alegres e rápidos encontros ou almoços entre meus sobrinhos, meus pequenos grandes faróis nesse oceano de incertezas!

Consegui, ainda assim, manter minha ansiedade num nível estável. Sim, é incrível, mas eu não pirei.
Confesso, tive crises de choro, noites sem dormir ou com sonhos de resoluções de exercícios.
Mas, não surtei.
E de novo, graças à intervenção carinhosa dos meus amigos e familiares.

Foi um ano que passou rápido, que não teve grandes novidades, que mal vivi.
Um ano que aprendi coisas que talvez nunca use, mas que, com sorte, me levarão a um momento melhor na vida profissional e especialmente financeira.

Nessa reta final, minhas expectativas são tímidas: quero fazer uma boa prova, mas já não me chateio em pensar na reprovação; quero estar serena, em controle absoluto da minha mente, e com isso aprender a gerenciar, quem sabe, outros departamentos da minha vida!
Penso já na próxima etapa, depois de um tempinho de descanso: iniciar nova rotina de estudos, dessa vez mais equilibrada!
Esse tempo de espera me ensinou a não ter pressa.

O fim chegou.
E começo a sentir uma estranha sensação de dever cumprido, de euforia e alívio.
Preciso de sorte na prova.
Mas é impossível negar:
Tenho sorte sempre. Até aqui, com (quase) todos os meus amados ao meu lado, na torcida.
Com saúde física, espiritual e (ufa!) mental.

Estou firme no meu desejo de ser sempre uma pessoa melhor: afinal, se eu nunca tentasse, como saberia onde errei?
E se errei, por que não recomeçar agora pensando no acerto?

Hora da aula.
Retomarei escrivanhações mil em breve.
Aos amigos e família, aos amados e queridos: minha imensa gratidão!

Aqui, só peço uma última coisa: que o que tiver que acontecer, que aconteça.
E que eu tenha a lucidez e serenidade para enxergar o que vier da maneira mais sábia possível para ser, estar, permanecer FELIZ!





24.8.10

Setecentos e cinquenta mil inscritos

O problema do número não é a concorrência, mas a logística de um dia de prova com tanta gente!

Vamos começar um mantra!

que o meu local de prova seja:
arejado, com banheiro que tenha descarga, papel, água,
e mesa e cadeira que não belisquem as pernas da gente,
e gente que não coma com a boca aberta ou espirre em cima do seu cabelo;
e fiscais que sejam atenciosos
e não gritem com ninguém,
e que não esteja nem frio nem calor,
e que minha cadeira não fique no sol a manhã toda,
e nem tenha aranhas subindo pela sua perna e você achando que é porque não se depilou e tem um cabelinho fazendo cócegas na calça,

e claro, fora isso:
que tudo que eu sei,
eu me lembre,
e tudo que eu me lembre,
caia na prova,
que tudo que caia,
não seja anulado

e também
que eu passe entre os primeiros chamados
e os chamados sejam empossados
e os empossados entrem em exercício
e que o exercício comece em fevereiro de 2011!

amém!

8.8.10

No meio

Semana Um
- cronograma feito, matrícula paga, início da reta final. Onze semanas.
medo, ansiedade, dor nas costas, euforia, esperança, total concentração. engordei.

Semana Dois
- cronograma atrasado, aulas longas e cansativas. cancelei a academia.
ansiedade, dor de cabeça, concentração absoluta, fé. emagreci.

Semana Três
- joguei o cronograma no lixo e fiz um novo. matei aulas improdutivas. comprei dez sessões de massagens.
ritmo, dor nos braços, dispersão, sono atrasado. ansiedade. engordei.

Semana Quatro
- novo cronograma. matei menos aulas. comprei um horror de material.
ansiedade. zumbido nos ouvidos. concentração. insônia. emagreci.

Semana Cinco
- novíssimo cronograma. matei aulas. matei um dia de biblioteca. comprei homeopáticos para dormir.
ansiedade. palpitações. insônia. zumbido nos ouvidos. dispersão. medo. ataque de choro (no chuveiro). engordei.

Semanha Seis - em curso:
- fazendo o mais novíssimo cronograma.
não matarei aulas;
tomarei os remédios para dormir;
farei as unhas;
e meditações diárias;
tudo bem, acho que vou chorar no chuveiro...
estou com medo.
mas também resignada: é esse o caminho.
e quase a todo momento, tenho certeza de que estou fazendo tudo que sei e que posso.

O caminho está no meio. Estou no meio do Caminho. E sinto que este é o Caminho do Meio.




30.7.10

Cotidiano

Toca o alarme.
Pasta de dentes para dentes sensíveis.
Escova de dentes com pilha nova, para remoção de placas e tártaros.
Água pelando do chuveiro.
Sabonete líquido manipulado para pele semi-oleosa, só no rosto.
Sabonete no corpo, trazido de Campos do Jordão.
Xampu de camomila para brilho nos cabelos.
Condicionador de camomila também - pra não ficar cheirando a salada de frutas de self-service. Pouco. A quantidade do condicionador, não a camomila. Nem a salada de frutas.
Enrola na toalha.
Desodorante anti-transpirante com proteção 48h. Mas mesmo assim, amanhã vou usar de novo. Cheiro de alguma florzinha.
Hidratante de Bergamota no corpo.
Protetor solar 45 no rosto. Nas mãos. No colo. No pescoço.
Cabelo penteado em 3 escovadas. Melhor, penteadas mesmo. Com pente.
Veste roupa. Uma sobre a outra como deve ser.
Vitamina de linhaça, aveia, ameixa, couve, frutas. Para estômago e intestino.
Floral para TPM.
Homeopático para ansiedade.
Banana na bolsa. Ou maçã.
E barra de cereal de quinua. Sem açúcar e com uva passa. Para o colesterol.
Casaco.
Óculos de sol para dirigir.
No sinal vermelho:
Creme para as unhas e cutículas.
Batom com suave brilho e proteção solar 15.
Se der, pó compacto no rosto, pescoço, colo. Com proteção solar 15 - daí, soma 60.
Sinal verde:
Esplanada dos Ministérios.
Em Brasília, oito horas.



28.7.10

Narcótico

Em uma das teorias da comunicação, fala-se sobre o efeito narcotizante dos meios de comunicação.
De um modo simplista, é quando nossa mídia não cumpre seu papel e acaba bombardeando a sociedade com um volume dispensável e inútil de tudo: informação, entretenimento, quando seu objetivo deveria ser infomar, entreter, interpretar, e - ok, até vigiar o status quo - mas, com um tempo para algum respiro.
Uma pausa para digestão. Nada!

O efeito narcotizante produz exatamente o óbvio - ficamos assim como que embriagados, anestesiados.
Satisfeitos em sabermos bastante sobre um monte de coisinhas.
Não mais sentimos a NECESSIDADE de agir.
A mídia nos substitui reclamando, denunciando, mostrando a guerra, a pobreza, a corrupção. Nós, de tanto ver, nem notamos mais e clic - mudamos o canal.
Ou abrimos a próxima página na internet.

Deixamos o agir para, sei lá, quando houver mais tempo
- mas o tempo adicional também trará mais vontades: mais filmes, mais notícias, mais isso, mais aquilo - aquilo tudo que a mídia reforça que devemos ter vontade de.

Como bêbados, não sabemos a hora de parar.
E se paramos, não sabemos muito bem o que fazer senão esperar a próxima oportunidade de voltar a beber.
A sensação é boa, sem dúvida.
Ficamos estranhamente preenchidos.
E só assim temos amigos para dividir opiniões lidas, pensadas!

Incrível tudo isso ter sido pensado em meados da década de 40
- a televisão ainda era um projeto e o rádio deveria ser como nossa internet. Não, nosso twitter. Não. Nossa Rede Globo. Todos, todos mesmo, tem acesso.
Ah, lindo isso: usar a mesma droga. Isso sim é democracia!

17.4.10

Sem encontro no encontro

Se meu passo é muito rápido
E meu rumo não é o seu
Eu me calo
Num resguardo
Nesse quarto azulado

Mas se espero aqui no canto
Um convite ao caminhar
Me espanto - um momento
Quando a voz chega no vento
Falando de um outro lugar

É você chamando longe
Eu respondo hesitante:
Se eu sair do meu caminho
E andar devagarinho
Chego perto de você?

Ou será, distante fico
De mim e do meu querer
Pensando em ficar com você?

Se eu falo isso agora
E nunca escuto você
É por medo da voz calada
Ouvir o surdo canto
Dessa saudade gritada

Então ando assim no meu passo
Aqui de longe mirando você
Que anda no outro traço
Em outra linha, de um espaço

Mas ah! se um dia der certo
E o vento fizer parar
O meu trotar na sua vida
A sua vida no meu passar
Eu desacelero o mundo
Eu mudo de prumo, de fato
Pro rumo do seu abraço




intensa assim. fazer o quê. beijo pra você.



13.4.10

O Guri

Acordei. Acordei do que seria a morte, mais uma vez algo deu errado. Não quero me rasgar o peito com uma lâmina cega de cólera, nem ter meu crânio estilhaçado por uma bala, não quero sangue. Além disso, esses dois modos são arriscados demais, posso sobreviver com sequelas e cicatrizes. Seja como for, seja limpo, dê o mínimo de trabalho aos outros.

Merda! Mijei na cama, to velho pra isso, ou ainda muito novo. Minha camisa serve como pano de chão, acho que dá para absorver o pouco de urina que tem. Não enxergo nada nessa escuridão, a cortina não revela se é dia ou se é noite. Sinto que dormi alguns dias, sinto um estranho gosto de vinho e cigarro na boca.

Já sei. O vinho fazia parte do meu rito de passagem, de uma vida para um nada. Era um cabernet sauvignon com comprimidos de dormonid, valium e lexotan. Maldita ressaca, essa mistura quando não mata te faz mal. Misturemos sempre com moderação, com a moderação necessária para nos matar.

Preciso dormir mais um pouco, mas nesse mijo úmido não dá, talvez o sofá de dois lugares em frente à TV, um sofá não pode ser pior que a sobrevida. Se um livro de auto-ajuda fala em 12 passos, eu preciso de um pouco mais, acho que até a sala são uns vinte cinco. Nesses vinte cinco, sigo cambaleando e batendo entre as paredes do corredor, esquerda, direita, esquerda, direita, passo a passo, até cair sublimemente como uma pluma cai do céu ou como um corpo que cai do oitavo andar.

Durmo mais oito horas seguidas, levanto e pego a minha água com gás, bem gelada com uma fatia de limão, sinto a garganta rasgar com o choque da água fria e do gás concentrado. Meu corpo flutua e pesa mais de uma tonelada ao mesmo tempo, é a gravidade brincando com o meu ser. São meus neurotransmissores e minhas bainhas de mielina que brincam comigo como teatro de sombras . É a vida, ou o resto que resta dela. Ligo o estéreo e seleciono a minha seleção de jazz, a ocasião pede luz de velas longe de mim e um jazz suave, quase sombrio, pode ser também um folk rock de um cantor suicida. Durmo mais algumas horas, sonho pouco, sonhos estranhos, alguns com sexo, outros com monstros e candidatos à presidência.

Não sei quanto tempo se passou desde o meu rito, passando pelo meu fracasso, até o momento atual. Fracasso... O insucesso é o fracasso dos otimistas, talvez um dia seja insucesso mijar na cama.

Preciso de um café, um bom café, não daqueles de padaria feitos às pressas com kilos de açúcar, quero um bom grão, um café bem tirado da máquina, para tomar sem açúcar, sentindo a pureza, pensando em poucas coisas puras que ainda há nesse mundo, talvez nem esse café seja puro. Mas prefiro não pensar muito nisso.

No caminho da cafeteria vejo um guri com uma cara chorosa, sozinho em frente ao banco, não sei quantos anos tem o pequeno piá, talvez oito ou dez, é impossível diferenciar crianças quando elas começam a ler aos 6 anos até começar a fumar maconha aos 16. Nesse período todos são iguais, alguns mais iguais que os outros.

- E aí guri, tá perdido? Pergunto com um certo tom de preocupação, não tão preocupado por ele estar perdido, talvez mais preocupado pela responsabilidade de ter que cuidar dele até ele encontrar o pai.

Com uma voz chorosa e presa, como quem sofresse em silêncio uma dor inexplicável, sem tamanho, ele responde:

- ´Tô esperando o meu pai, ele foi pegar dinheiro pra fazer a compra do mês. Já deve ‘tá saindo.

- É perigoso um garoto da sua idade ficar sozinho aqui.

- Ele disse que seria rápido. Porque o senhor está triste?

-Por que me chama de senhor?

- Meu pai me disse pra chamar gente mais velha que a gente de senhor.

-Entendo. Estou triste. Minhas paredes estão caindo e eu estou tropeçando nos meus passos, as pontes pelas quais passei caíram.

- Como assim, senhor?

-Esquece. Esse moletom foi você que escolheu?

-Mais ou menos. Meu pai queria que eu pegasse esse.

O garoto tímido, alto pra idade dele e bem articulado, apesar de poucas palavras, usava um moletom flanelado com uma estampa chamativa, era laranja e azul, uma combinação bem infantil para um garoto com postura de homem, pelo olhar desse guri dava pra ver que pela vida já havia passado maus bocados. O guri de cabeça baixa fazia um vai e vem com a perna.

-Seu pai percebeu que você escolheu essa roupa pra agradá-lo.

-Não sei, senhor. Eu uso pouco essa roupa, não gosto de usar perto dos meus amigos, uso só quando saio com meu pai. Queria um com desenho preto e vermelho. Meu pai tá me chamando. Tchau!

Alguns meses se passaram, minha esperança na vida ainda era fraca. A vida não passa de uma sucessão de acontecimentos repetitivos com pequenas variações imperceptíveis. As cores são dadas pelo eterno conflito do bem e do mal, esquerda e direita, copo meio cheio e copo meio vazio, estampas laranja e azul, e preta e vermelha. A vida tem sentindo na contradição, na antítese e no paradoxo.

Estava decidido Juntei receitas de diversos médicos, e brindes de alguns traficantes. Dessa vez o meu ritual seria com Jack Daniels, o melhor Bourbon, teria Valium, Dormonid e Lexotam. Começaria pelo Lexotan por ser mais fraco, curtiria a onda, a dormência dos olhos. Depois passaria para o Valium, minha boca ficaria mole, as palavras sem sentido e tudo teria um tom cômico. Depois abriria o Jack, sem gelo, como deve ser um Bourbon, e acabaria com o Dormonid. Sentiria meus dedos adormecerem, meus pés, meus braços e minhas pernas...uma gradação de dormência e esperança em não mais palpitar o coração.

Quando saí da farmácia vi o guri. Era um piá, um pequeno guri, mas estava tão alto, tão crescido. Sem barba e com pensamentos e devaneios e usava um moletom. Dessa vez preto e vermelho, discreto, ideal pra sua idade, ou suposta idade pela altura que tinha. Parecia feliz caminhando com passos fortes e largos. Às vezes penso se era um guri ou um homem. Ele passou por mim, me derrubou no chão, minha sacola de compras da mão direita voou longe, minha garrafa caiu no chão mas não quebrou. O Rapaz pediu desculpas, foi bastante educado perguntou se eu estava bem, mas não me reconheceu. Quando levantei, procurei meu kit suicídio e vi que estava no meio da rua, sendo atropelado várias vezes por carros e dentro de uma poça d’água. Merda!

Pelo menos o pequeno herói de moletom com estampa preta e vermelha me deixou com a garrafa de Jack e mais um dia de vida, talvez ache uma linda mulher pra tomar comigo. Talvez chegue em casa e escreva um bilhete na geladeira “ carpe diem”, quem sabe eu não escreva em algum outro dia “carpe vitae”.

de b.varjão

beijo, querido!

15.3.10

Desistindo

Às vezes, é melhor desistir das pessoas.
Deixá-las ser quem são, mesmo quando me aborreço com elas.
Acho que conversar, dar conselhos, na verdade, pouco acrescenta.
E no fundo é pura vaidade, uma certeza absoluta de que tenho a resposta para a felicidade de todos.
Especialmente a minha.

Então, desisto.
Sem ressentimento, sem chateação.
Abro mão de fazer o outro enxergar o que eu enxergo - essa tarefa é praticamente impossível!
Me calo para fora e procuro conversar aqui dentro.
E me pergunto se alguém já desistiu de mim assim, desse jeito.
Certamente, muitas vezes.

Mas, se num primeiro momento, sinto uma certa tristeza,
é um grande alívio deixar o outro ser e viver do jeito dele.
E tudo que tenho a fazer é NÃO DESISTIR de mim.
Assim, aqueles que me chateiam, me decepcionam
São importantes lembranças de quem realmente importa:
EU.

8.3.10

Etapas

- Não precisa queimar etapas. Quando tiver a idade certa, poderá fazer isso.
É claro que essas afirmações eram sempre sobre sair à noite (aos 13 anos), beber cerveja (aos 16 anos), dirigir o carro (só na garagem, só um pouquinho - aos 17 anos).
Sim, meus pais foram bem rígidos nesse sentido.

E deixaram marcado em mim a importância de se fazer as coisas na hora certa, na idade certa:
estudar quando se é estudante
dirigir quando se faz 18 anos
e assim por diante.

Mas, sem perceber, nos assuntos do coração, fiz exatamente o que meus pais desaconselharam: queimei etapas.
Passei minha adolescência e juventude me apaixonando "pra valer".
Levando ao pé da letra a coisa de ser séria, madura, adulta.
Nunca tive um amor de verão. Todos os meus namoros duraram meses, anos. Me levava a sério demais, me achava pronta demais. E sofria terrivelmente quando algo dava "errado" (lê-se, o amor acabava).
O tempo passou e percebo que deixei de ser leve, divertida e livre.
Agora, na idade de pensar tudo que pensei a vida toda, entendo que é exatamente isso que eu tenho que deixar de ser:
Séria
Madura
Adulta
Mas, como fazer isso acontecer? Eu SOU adulta. E, apesar de não parecer muito, até que tenho um pouco de maturidade...E com relação a amor, amigos e família, eu sou séria pra valer!

Queimei etapas.
Quando jovem, deveria ter sido irresponsável, blasé, leve e imatura.
Para que quando chegasse aos trinta e tantos, finalmente me tornasse segura, forte e pronta.
Por ter vivido assim, me sinto cada vez mais infantil, insegura e despreparada.
E por causa disso, temo afastar as oportunidades que uma vida de mulher adulta e madura possam trazer.

Mas o que eu estou fazendo?
Se continuar pensando assim, só reforço o tempo "perdido" até aqui!

Bah! Que tuda vá às favas! Vou tomar sangria com amigos em plena segunda à noite.
E ser a adolescente boba e leve que nunca fui.

É como alguém disse em algum lugar - "fake it until you make it"





3.2.10

Mulher, Loba, Velha do Mundo

Estou agora encarnando a Velha do Mundo que vive em mim.
Ela canta uma canção silenciosa e melódica, cata ossos de animais do mundo inteiro,
Acende uma fogueira alta no deserto seco.

Enquanto canta, os ossos lentamente ganham as carnes ao redor:
carnes de uma loba grande, marrom, macia.
Quanto mais forma e matéria, mais alto o som da canção.

A loba nasce dos ossos e do som.
Em forma animal, se estica, se alonga
A Velha olha nos olhos do bicho
O bicho-loba uiva
Salta o fogo
Corre nas dunas

A Velha de longe enxerga com a Lua
A loba virou mulher nua
Lá, no horizonte