11.1.17
Ansiedade, a vilã secreta
Havia sofrido um rompimento com um namorado de um ano. Ele era tudo pra mim, com quem eu queria me casar e ter filhos. Um belo dia, depois de um jantar, sem nenhuma palavra, ele me entregou a cópia das chaves que ele tinha da minha casa, e nunca mais falou comigo. Nunca mais. Não atendia meus telefonemas, ou quando muito, era monossilábico.
Após seis meses de insistência, decidi que era o suficiente: a rejeição dele tinha que ser um sinal claro para mim de que ele não queria mais ser meu namorado.
A conclusão e o rompimento eu tive que inventar já que ele nunca me comunicou o porquê da decisão dele.
A tristeza desse processo fermentou minha ansiedade: o que já era latente teve a oportunidade de aparecer com toda força, me dominar, controlar minha vida, meus pensamentos, minhas emoções.
Nesse período de limbo, enquanto eu tentava alternar táticas para 'resolver' a relação, entre ligações insistentes e silêncios por dias a fio, construí uma ansiedade que virou uma muleta para a caminhada que eu via pela frente: para mim, era uma questão de tempo para retomar o namoro. E com isso em mente, todos os meus pensamentos e ações eram voltados para esse fim. E a cada atitude mal sucedida, e que não me levava para esse resultado, mais ansiosa eu ficava.
A ansiedade que eu vivia me impedia de dormir bem, e por isso, eu estava em um constante estado de mal humor. Esse mal humor, a irritação e a agitação trocavam de lugar com um desânimo, uma preguiça de tudo e de todos.
Até claro, a gota d´água - algum dia, por algum motivo, depois de muitos comentários das amigas, dos familiares, algo em mim decidiu que esse método não estava funcionando e que então, eu deveria experimentar algo novo.
E fui meditar a convite de uma amiga.
Entendi com um insight incrível que aquilo que eu perseguia, o retorno da relação, nunca ia acontecer, e que por isso, não havia motivo para estar constantemente ansiosa. Senti um misto de alívio e decepção. Mas a prática me tirava da tristeza, me lembrava da desimportância da ansiedade e o principal - que eu não tenho praticamente nenhum controle sobre a minha vida, sobre a vida dos outros.
Nove anos passados, me encontro em uma situação semelhante emocionalmente: a ansiedade segue como vilã disfarçada de boa moça e me pega de surpresa por vezes dias a fio. Consigo identificar uma agitação no pensamento e nas ações, às vezes em minutos, às vezes demoro quase uma semana! Em geral, associo a situações não resolvidas, ou mal resolvidas, nas quais eu não tenho controle do resultado e antecipo uma resolução negativa. Também consigo observar a ansiedade ampliada nos períodos do meu ciclo menstrual em que as oscilações hormonais são mais gritantes.
Daí, respiro, medito, corto a cafeína, e deliberadamente vou fazer algo que me faça BEM - escrever aqui, por exemplo.
Essa mudança comportamental me traz uma perspectiva para olhar para a situação de uma maneira menos obsessiva, e reforça esse meu entendimento de que a ansiedade não me serve para nada, porque eu não controlo nada, logo, o melhor a fazer é seguir vivendo. Neste exato momento, tudo isso acaba de funcionar!
17.9.16
Tudo ao mesmo tempo agora
Agora nas férias, me propus a ler textos acadêmicos, e também trouxe na mala o Amor Líquido, do Bauman. É aquela história - leitura difícil não deveria ser companhia pras férias; mas se não for nas férias, que horas vou ler um livro tão difícil?
Eu li, e doeu. Muitas tristes verdades confirmadas e revistas. Nunca ficou tão claro para mim o quanto me sinto deslocada, despertencida, ignorada no mundo.
Viajar sozinha é sempre uma exceção, mas Fortaleza foi gritante - vai ganhar o título de Tradição Família e Propriedade da capital mineira porque af, que triste: o machismo, a homofobia, o chovinismo, o patriarcalismo.
Se viajar sozinha já é um ponto fora da curva, ser mulher, solteira e quarentona, éter e classe média então. Em cada cenário, reafirmo minha abdução de outro planeta para a Terra. Quero o impossível na vida a dois, no trabalho, nos espaços comuns: as cidades. E recebo de volta comentários machistas de homens com alianças procurando as putas da praia; um golpe de Estado que hierarquiza relações que mal existem profissionalmente; me calo diante de afirmações da classe alta do quanto é importante o filho sair com um segurança particular dirigindo um carro importado blindado.
É, eu sou toda errada.
Não tenho mais convicções para compartilhar porque essa palavra foi abolida dos vocabulários dos grupos de whats up - inclusive o grupo da família, que era antes uma chuva de bons dias e boas noites, agora é só insulto e provocações políticas que ninguém lê de verdade mas se sente mal.
E nem contemporizar os ânimos eu quero mais. Não mais.
Estamos todos carentes.
E é uma carência sem fim, um poço seco e sem fundo, porque não importa a atenção, ela vem sempre tarde demais, pouca demais, de quem não importa demais.
É hora do meu embarque.
Volto pra casa mais insegura, com mais medo e mais tristezas que quando cheguei. O Brasil é grande, as pessoas estão somente sub-existindo, e vamos mudar de assunto porque o próximo programa de tv vai começar, chegou mensagem no whats up e uma foto pra subir no instagram. Depois a gente vê essa coisa de viver.
16.9.16
Hiato
17.2.13
Quero mais, saúde!
Hoje escrevo pra sair da inércia e contar pra geral a novidade do ano de 2013.
Sim, amigos, ainda estamos no mês dois, mas minha vida já teve algumas revoluções.
E a que eu vou dividir com vocês hoje é: estou diabética.
É isso. Super foda, mas é isso aí.
Depois de ouvir da médica que não dava mais para adiar o uso de medicamentos, fui para casa chorando e pensando na merda que minha vida será.
Minha diabetes é do tipo 1, que é aquela adquirida e que não pede o uso da insulina (ufa, sem injeções diárias!). O que pega mesmo no meu caso é o quanto de insulina que o meu pâncreas produz: o açúcar entra no meu sangue, eu produzo a insulina necessária; meu corpo não entende que eu já fiz essa primeira produção e manda o coitado do pâncreas começar tudo de novo. Daí que eu produzo insulina demais, e não de menos. Atualmente, estou produzindo o dobro da quantidade de insulina necessária.
Passei os últimos 3 anos monitorando a situação e jurando pra médica e pra mim mesma que faria atividade física diariamente - e dançar a noite toda uma vez por semana não contou; sexo também não foi com a frequência necessária para pontuar nesse quesito - e também prometi cuidar da alimentação: o que eu cumpri direitinho, salvo os porres homéricos, ai.
Estou há três semanas tomando 500 mg de Glifage diaraimente, um composto de metformina. De acordo com a bula, é bom pra controlar essa média insulina/glicose. Os dez primeiros dias foram infernais: dores de cabeça ininterruptas, diarréia e enjoo. O milagre aconteceu depois: com uma dieta mais equilibrada - não virei um robozinho, mas juro que estou empenhada - o remédio e os chás estão fazendo maravilhas: estou mais disposta, menos sonolenta e quase sem preguiça (mentira!)
Agora que tudo está quase sob controle, resta minha disciplina, vontade e determinação (rooonc!)
Procuro uma atividade física que me faça feliz, me dê a motivação de persistir diariamente e não pese no meu bolso. Até o final de fevereiro, bato o martelo entre a hidroginástica (roooonnnc!) a natação (ai, canseira de tanta infra) e a dança (por que eu só gosto de coisa de rica?) - estou em fase experimental. Amanhã, vou nadar.
Depois de tanto mimimi, confesso: ainda me sinto fragilizada pela notícia, sendenta pelas cervejas e chocolates não ingeridos e duvidosa sobre o quão disciplinada eu conseguirei ser. Mas isso é assunto para outros posts.
24.3.12
sábado
10.2.12
Surpresa!
25.4.11
23.4.11
confissão
12.3.11
Ciclone circulares ciclos
16.10.10
Provas
3.9.10
Fim
24.8.10
Setecentos e cinquenta mil inscritos
Vamos começar um mantra!
que o meu local de prova seja:
arejado, com banheiro que tenha descarga, papel, água,
e mesa e cadeira que não belisquem as pernas da gente,
e gente que não coma com a boca aberta ou espirre em cima do seu cabelo;
e fiscais que sejam atenciosos
e não gritem com ninguém,
e que não esteja nem frio nem calor,
e que minha cadeira não fique no sol a manhã toda,
e nem tenha aranhas subindo pela sua perna e você achando que é porque não se depilou e tem um cabelinho fazendo cócegas na calça,
e claro, fora isso:
que tudo que eu sei,
eu me lembre,
e tudo que eu me lembre,
caia na prova,
que tudo que caia,
não seja anulado
e também
que eu passe entre os primeiros chamados
e os chamados sejam empossados
e os empossados entrem em exercício
e que o exercício comece em fevereiro de 2011!
amém!
8.8.10
No meio
30.7.10
Cotidiano
28.7.10
Narcótico
17.4.10
Sem encontro no encontro
13.4.10
O Guri
Acordei. Acordei do que seria a morte, mais uma vez algo deu errado. Não quero me rasgar o peito com uma lâmina cega de cólera, nem ter meu crânio estilhaçado por uma bala, não quero sangue. Além disso, esses dois modos são arriscados demais, posso sobreviver com sequelas e cicatrizes. Seja como for, seja limpo, dê o mínimo de trabalho aos outros.
Merda! Mijei na cama, to velho pra isso, ou ainda muito novo. Minha camisa serve como pano de chão, acho que dá para absorver o pouco de urina que tem. Não enxergo nada nessa escuridão, a cortina não revela se é dia ou se é noite. Sinto que dormi alguns dias, sinto um estranho gosto de vinho e cigarro na boca.
Já sei. O vinho fazia parte do meu rito de passagem, de uma vida para um nada. Era um cabernet sauvignon com comprimidos de dormonid, valium e lexotan. Maldita ressaca, essa mistura quando não mata te faz mal. Misturemos sempre com moderação, com a moderação necessária para nos matar.
Preciso dormir mais um pouco, mas nesse mijo úmido não dá, talvez o sofá de dois lugares em frente à TV, um sofá não pode ser pior que a sobrevida. Se um livro de auto-ajuda fala em 12 passos, eu preciso de um pouco mais, acho que até a sala são uns vinte cinco. Nesses vinte cinco, sigo cambaleando e batendo entre as paredes do corredor, esquerda, direita, esquerda, direita, passo a passo, até cair sublimemente como uma pluma cai do céu ou como um corpo que cai do oitavo andar.
Durmo mais oito horas seguidas, levanto e pego a minha água com gás, bem gelada com uma fatia de limão, sinto a garganta rasgar com o choque da água fria e do gás concentrado. Meu corpo flutua e pesa mais de uma tonelada ao mesmo tempo, é a gravidade brincando com o meu ser. São meus neurotransmissores e minhas bainhas de mielina que brincam comigo como teatro de sombras . É a vida, ou o resto que resta dela. Ligo o estéreo e seleciono a minha seleção de jazz, a ocasião pede luz de velas longe de mim e um jazz suave, quase sombrio, pode ser também um folk rock de um cantor suicida. Durmo mais algumas horas, sonho pouco, sonhos estranhos, alguns com sexo, outros com monstros e candidatos à presidência.
Não sei quanto tempo se passou desde o meu rito, passando pelo meu fracasso, até o momento atual. Fracasso... O insucesso é o fracasso dos otimistas, talvez um dia seja insucesso mijar na cama.
Preciso de um café, um bom café, não daqueles de padaria feitos às pressas com kilos de açúcar, quero um bom grão, um café bem tirado da máquina, para tomar sem açúcar, sentindo a pureza, pensando em poucas coisas puras que ainda há nesse mundo, talvez nem esse café seja puro. Mas prefiro não pensar muito nisso.
No caminho da cafeteria vejo um guri com uma cara chorosa, sozinho em frente ao banco, não sei quantos anos tem o pequeno piá, talvez oito ou dez, é impossível diferenciar crianças quando elas começam a ler aos 6 anos até começar a fumar maconha aos 16. Nesse período todos são iguais, alguns mais iguais que os outros.
- E aí guri, tá perdido? Pergunto com um certo tom de preocupação, não tão preocupado por ele estar perdido, talvez mais preocupado pela responsabilidade de ter que cuidar dele até ele encontrar o pai.
Com uma voz chorosa e presa, como quem sofresse em silêncio uma dor inexplicável, sem tamanho, ele responde:
- ´Tô esperando o meu pai, ele foi pegar dinheiro pra fazer a compra do mês. Já deve ‘tá saindo.
- É perigoso um garoto da sua idade ficar sozinho aqui.
- Ele disse que seria rápido. Porque o senhor está triste?
-Por que me chama de senhor?
- Meu pai me disse pra chamar gente mais velha que a gente de senhor.
-Entendo. Estou triste. Minhas paredes estão caindo e eu estou tropeçando nos meus passos, as pontes pelas quais passei caíram.
- Como assim, senhor?
-Esquece. Esse moletom foi você que escolheu?
-Mais ou menos. Meu pai queria que eu pegasse esse.
O garoto tímido, alto pra idade dele e bem articulado, apesar de poucas palavras, usava um moletom flanelado com uma estampa chamativa, era laranja e azul, uma combinação bem infantil para um garoto com postura de homem, pelo olhar desse guri dava pra ver que pela vida já havia passado maus bocados. O guri de cabeça baixa fazia um vai e vem com a perna.
-Seu pai percebeu que você escolheu essa roupa pra agradá-lo.
-Não sei, senhor. Eu uso pouco essa roupa, não gosto de usar perto dos meus amigos, uso só quando saio com meu pai. Queria um com desenho preto e vermelho. Meu pai tá me chamando. Tchau!
Alguns meses se passaram, minha esperança na vida ainda era fraca. A vida não passa de uma sucessão de acontecimentos repetitivos com pequenas variações imperceptíveis. As cores são dadas pelo eterno conflito do bem e do mal, esquerda e direita, copo meio cheio e copo meio vazio, estampas laranja e azul, e preta e vermelha. A vida tem sentindo na contradição, na antítese e no paradoxo.
Estava decidido Juntei receitas de diversos médicos, e brindes de alguns traficantes. Dessa vez o meu ritual seria com Jack Daniels, o melhor Bourbon, teria Valium, Dormonid e Lexotam. Começaria pelo Lexotan por ser mais fraco, curtiria a onda, a dormência dos olhos. Depois passaria para o Valium, minha boca ficaria mole, as palavras sem sentido e tudo teria um tom cômico. Depois abriria o Jack, sem gelo, como deve ser um Bourbon, e acabaria com o Dormonid. Sentiria meus dedos adormecerem, meus pés, meus braços e minhas pernas...uma gradação de dormência e esperança em não mais palpitar o coração.
Quando saí da farmácia vi o guri. Era um piá, um pequeno guri, mas estava tão alto, tão crescido. Sem barba e com pensamentos e devaneios e usava um moletom. Dessa vez preto e vermelho, discreto, ideal pra sua idade, ou suposta idade pela altura que tinha. Parecia feliz caminhando com passos fortes e largos. Às vezes penso se era um guri ou um homem. Ele passou por mim, me derrubou no chão, minha sacola de compras da mão direita voou longe, minha garrafa caiu no chão mas não quebrou. O Rapaz pediu desculpas, foi bastante educado perguntou se eu estava bem, mas não me reconheceu. Quando levantei, procurei meu kit suicídio e vi que estava no meio da rua, sendo atropelado várias vezes por carros e dentro de uma poça d’água. Merda!
Pelo menos o pequeno herói de moletom com estampa preta e vermelha me deixou com a garrafa de Jack e mais um dia de vida, talvez ache uma linda mulher pra tomar comigo. Talvez chegue em casa e escreva um bilhete na geladeira “ carpe diem”, quem sabe eu não escreva em algum outro dia “carpe vitae”.
de b.varjão
beijo, querido!
15.3.10
Desistindo
8.3.10
Etapas
3.2.10
Mulher, Loba, Velha do Mundo
Ela canta uma canção silenciosa e melódica, cata ossos de animais do mundo inteiro,
Acende uma fogueira alta no deserto seco.
Enquanto canta, os ossos lentamente ganham as carnes ao redor:
carnes de uma loba grande, marrom, macia.
Quanto mais forma e matéria, mais alto o som da canção.
A loba nasce dos ossos e do som.
Em forma animal, se estica, se alonga
A Velha olha nos olhos do bicho
O bicho-loba uiva
Salta o fogo
Corre nas dunas
A Velha de longe enxerga com a Lua
A loba virou mulher nua
Lá, no horizonte